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19/08/2011

Ser ator

Ator: s.m. Pessoa que representa em teatro, cinema, rádio, televisão; artista, intérprete. 

Certa vez, ouvi um significado que carrego comigo: ser ator é observar e tentar compreender o mundo e as pessoas. Dá para ir mais além quando pensamos nisso. 

Atuar: o feito de mostrar ao público um alguém que existe apenas no imaginário, no faz de conta; incorporar uma ideia proposta e trazer as pessoas para aquela realidade projetada; é o contar bem uma historia, sendo você, o ator, a letra, o livro e a boca que fala.
É trabalhar com a essência, é buscar a própria natureza, é caracterizar a perfeição daquilo que não somos, é transformar-se naquilo que não se é (ou se é?), é deixar a alma tomar conta. É brincar como criança, de ser polícia, bandido, mocinho, palhaço, engraçado, carrancudo, feio, bonito, inteligente, burro... 
É a acolhida da experiência de vida e o poder da observação. Um ator ama a arte (e não o deslumbre). Atuar está entre aprender com o personagem e voltar a não saber de mais nada para conseguir alcançar a interepretação de outro. O ator não possui a verdade absoluta, mas aprende todos os dias diversas verdades absolutas. O ator ali está para mostrar sua essência ao seu público, seu verdadeiro amor.

O ator Antonio Calloni há dois anos escreveu com um texto que expressa essa profissão, essa forma de vida. E neste dia genial, temos mais é que parabenizar cada um de vocês que dão a vida por algo que de fato acreditam, que nos fazem sorrir, chorar, gargalhar, entristecer e aprender ainda mais.

 “Ser ator é realmente uma profissão de maluco, fascinante. A poética do ridículo, o brincar de faz de conta, o infindável universo onírico infantil e a tremenda cara de pau fazem com que os atores encantem - pelo seu poder de transgressão, pela sedução, pelo poder de conscientização, pela capacidade de simplesmente entreter e pela mágica de poder ser quase todo mundo - aos que os assistem e sonham junto com eles. 

Lemos Diderot, Stanislavsky, Grotovsky, Maierhold, D. T. Suzuki e uma infinidade de outros livros (todos fundamentais). Ouvimos muita música clássica para apurarmos nossa noção de ritmo, de cor, de intensidade. Ouvimos samba, pagode, MPB, música sertaneja e o diabo a quatro, graças ao bom Deus. Graças a obrigatória falta de preconceito para ver e viver a vida como ela é (obrigado, grande Nelson!) e poder reproduzi-la, e, melhor ainda, recriá-la como uma pintura, que quase sempre é mais rica do que uma foto. Vemos (com o corpo inteiro) pinturas de Bosch, Goya, Velásquez, Max Ernst, para tentar compreender alguns mistérios da vida, para provocar nossos sonhos, ou, para nada. Só para ver mesmo. Que bom!

Conversamos com o Zé que vende coco no quiosque da praia e notamos um gesto diferente, um ritmo novo, outras possibilidades de comportamento e de comunhão com a vida. Observamos sem pensar. Viva o Zé! Precisamos dele. E depois colocamos uma armadura e dizermos que somos cavaleiros da Távora Redonda, dizemos que somos bons, que somos maus, que somos bons e maus, que somos gente. É uma profissão que deveria se iniciar logo que a pessoa começasse a falar e a ler, e terminar no início da adolescência, já que os adolescentes têm verdadeiro horror a pagar mico. Mas não, o maravilhoso complexo de Peter Pan nos acompanha pelo resto da vida e passamos a nos comportar como crianças relativamente adultas. E aí entra a poética do tempo que estará sempre a nosso favor.”
(Antonio Calloni, ator e poeta)

  "Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?"
(Clarice Lispector)

Um feliz dia do ator! 


Imagens: Grupo A Ordem do Caos - Teatro