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13/11/2012

"O Teatro da Crueldade" de Antonin Artaud

Por Wellington Dias
crueldade 
s.f.
1. Qualidade de cruel.
2. Ato próprio de pessoa cruel.
3. Desumanidade.
4. Barbaridade.
5. Excessivo rigor.

http://stanford.io/SYQF66
http://bit.ly/ZD5QXN
Para alguém tão crítico como o filosofo francês Jacques Derrida (1929-2004), que chegou a propor a desconstrução da filosofia, se inspirar nas obras de Antonin Artaud (1896-1948), autor de teatro e cinema, teórico do teatro, poemas, ensaios e cartas (seu meio de expressão preferido), não chega a ser um espanto. Derrida propunha um método, ou processo de análise crítico-filosófica da metafísica ocidental e da sua tendência para o logocentrismo, incluindo a crítica de certos conceitos que tal tradição havia imposto como estáveis. Uma forma de repensar todo o sistema filosófico que vivemos, baseado em uma cultura imediatista e centralizada em uma visão onde a verdade está na cultura ocidental. Uma forma de rompimento com a verdade soberana e uma nova vivência. Neste ponto é que seus pensamentos se aproximaram do que é conhecido como o Teatro da Crueldade.

Entender Artaud é um processo de rompimento consigo mesmo. É preciso despir-se de barreiras sociais e de paradigmas culturais. Aos 24 anos, o autor já havia sido internado por problemas psicológicos e de saúde em geral e tomava tintura de ópio para aliviar suas dores de cabeça, o que o deixou dependente. Mas mesmo diante destas adversidades, Artaud defendia as ideias de Nietzsche contra o efeito imitativo da arte. A arte não era para ser vista, e sim vivida; não é a arte que imita a vida e sim a vida que imita a arte. Esta interpretação reflete a sociedade e ela deveria ser abalada em prol da arte. Deve-se haver uma encenação pura, sem textos, onde a fala seja mero complemento a ações de espontaneidade. A palavra, o texto, prende o ator. Assim como as palavras nos sonhos, para Freud, eram secundárias, sem a importância das ações, assim ela também é no Teatro da Crueldade.

http://bit.ly/SPUIBq
A representação do cruel é o cotidiano e deve investir no espectador, estar dentro de seu eu real. O espectador é o centro da ação e o palco são as laterais, não há separação entre eles. O espectador é rodeado pelo espetáculo e o espaço não é mais limitado, é permitido usar seus interiores. O teatro da crueldade sai do espaço específico indo para igrejas, hospitais e locais abertos. É a volta do teatro a ideia mágica elementar, o teatro livre e afirmador onde é "preciso de atores que, em primeiro lugar, sejam seres...” Rousseau propõe substituir as representações teatrais por festas públicas, sem exposição nem espetáculo, sem “nada para ver”, onde os espectadores se tornariam atores. Artaud quis apagar a repetição em geral e o verdadeiro é sempre o que se deixa repetir. A festa da crueldade só deveria acontecer uma vez para Artaud.

“a poesia vale uma vez, depois destruam-na”.

Pensar no teatro puro, sem representação, a ideia do impossível, se não nos ajuda a regular a prática teatral, permite-nos, talvez, pensar na sua origem. As sensações que o teatro da crueldade proporciona remetem o participante aos instintos primários do ser humano. Entender Artaud é um processo de doação, mas mais que isso, um processo de encontro com o seu eu.

Wellington Dias é professor universitário e diretor teatral do grupo A Ordem do Caos. Formado em Comunicação Social - Rádio e TV, atualmente está mestrando em Comunicação e Inovação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul.