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10/10/2012

Trilha da Memória: o despertar para os avanços e retrocessos da Fábrica de Cimento Portland Perus


Por Tamires Santana

Comecei a andar de trem sozinha, por volta dos meus treze anos de idade e, ainda assim, apenas no período de férias. Saía de Francisco Morato e seguia à Vila Mariana para passar alguns dias na casa da minha avó paterna. A sensação de liberdade era grande e a paisagem sempre maravilhou o meu olhar e preencheu a imaginação de curiosidades e fantasias. Como as coisas mudam... Foi-se o tempo em que era prazerosa uma viagem de trem! Entre Caieiras e Perus, sentido São Paulo, olhando para a direita é possível avistar uma fábrica abandonada. Não me recordo ao certo quando comecei a repará-la, mas desde aquele momento, repetidamente, pensava: “um dia ainda vou conhecer aquele lugar.” O dia tão esperado chegou e, para a minha surpresa, superou as expectativas.

A Trilha da Memória resgata a história da região. Sobretudo, mantém viva a lembrança que envolveu a instalação, desenvolvimento e fechamento da primeira fábrica de cimento que deu certo no país: a Fábrica de Cimento Portland Perus. A trilha (re)descobre um pequeno túnel utilizado na época pelos trabalhadores e suas famílias para irem à escola, fórum, etc. Chega-se às primeiras instalações abandonadas e que faz parte do contexto do funcionamento da fábrica; a casa dos administradores, dando vazão ao pátio e ao restaurante, até que se conhece as instalações onde trilhos e máquinas trabalharam incessantemente a céu aberto. Ferro, rochas, cimento, vagões abandonados, entradas sinistras, buracos, escadas de ferros quebradas, torres e fornos abandonados são alguns dos elementos que mais se veem no local. Além disso, o lugar é cheio de passagens subterrâneas, o que deixa o ambiente mais interessante e misterioso. Visitar o local à noite, só para os corajosos.

Bem mais adiante, pode-se contar com a presença de algumas famílias. Na antiga vila, a capela ao centro faz coro ao triângulo de casas. Mais caminhada e se tem a oportunidade de andar de Maria Fumaça do século 19, por 3 quilômetros de trilhos já recuperados e conhecer os  modelos de trens que fizeram parte da história do nosso país. Entre eles estão o trem de Santo Dumont, que inspirou Adoniram Barbosa a compor Trem das Onze, e a primeira locomotiva a ser fabricada no Brasil.

Curiosidade: a construção da Estrada de Ferro foi solicitada com o objetivo de atender os romeiros que se dirigem ao santuário, no entanto, nunca chegou a Pirapora. “Os trabalhos de construção foram realizados entre 1911 e 1914, com Os trilhos implantados em paralelo ao leito do Rio Juquery e do Córrego Ajuá (ou Perus), seu afluente. Entretanto, pouco depois do km 15, a linha foi bruscamente desviada para o Norte, na direção do bairro de Gato Preto, área então sob jurisdição do Município de Parnaíba, em flagrante contradição com o processo.”²

 História

 A história que envolve a Fábrica de Cimento Portland Perus é extremamente rica em detalhes, tramoias e injustiças. Resumindo, em 1910, o ministro Sylvio de Campos já havia descoberto que as rochas da região eram as melhores para produção de cimento. Em meados de 1926 a Fábrica é inaugurada, resultante de um consórcio entre comerciantes canadenses representados pela Drysdale y Pease (Montreal) e brasileiros ligados à Companhia Industrial e de Estrada de Ferro Perus-Pirapora.³

Chefiada pelos canadenses, a usina recebia todo tipo de cuidados, sobretudo com a qualidade de vida dos trabalhadores e suas famílias. J.J. Abdalla, ministro do governo na época e estrategista de primeira, sabia sobre o prazo da concessão, que venceria por volta de 1950. Chegou para os clientes da fábrica e anunciou que a usina só iria vender a produção se recebesse adiantado. Captou recursos suficientes para comprar a fábrica dos canadenses, assumindo em 1951.

O novo empregador só pensava em expandir a produção e esqueceu-se das questões trabalhistas: ao invés de consertar as máquinas, as remendava para não interromper o ritmo da produção.  Em menos de três anos a primeira greve estourou. Para se ter uma ideia, os filtros dos fornos não foram instalados corretamente; 10% da fumaça que saía  das torres espalhava-se pelo bairro de Perus, indo parar diretamente no pulmão da população. Outro agravante era nas épocas de chuvas, pois o pó de cimento misturava-se com a água e, na secagem, os telhados cediam com o peso. Os barrancos (até hoje) são cimentados pelo mesmo motivo.


Queixada não é lamentação

Queixada não é de comer, nem lamentação: é sinônimo de luta e honra. O nome atribuído aos trabalhadores significa “porcos do mato que, ao perceberem o perigo, reúnem-se em manadas, obrigando o inimigo a refugiar-se.” A Luta dos Queixadas durou sete anos, contando com a organização dos operários, população, sindicatos e organizações paralelas. O movimento teve participação ativa por meio das mobilizações de protestos, deixando evidente o descontentamento com as políticas apoiadas e implantadas pelo Estado e empresários em plena Ditadura Militar. Imagine quanta repressão e mortes a história esconde... Foi o movimento que realizou a maior greve na historia do Brasil e este ano faz 50 anos de luta. As importantes conquistas para os trabalhadores brasileiros, atingidas a partir do movimento dos Queixadas, foram a primeira regulamentação do salário-família; a presença do sindicato nos atos de contratação e demissão de mão de obra; e o reconhecimento da legalidade das greves por atraso de pagamento.
Portanto, a fábrica de cimento tem seu papel na economia nacional e sua história merece ser lembrada.


Serviço

Trilha da Memória
O programa faz parte da programação que comemora os 07 anos de Quilombaque. Para saber sobre próximas datas de passeios, entre em contato com o grupo.
Telefone (11) 3917-3012
Email: quilombaque@gmail.com

ECO-MUSEU FERROVIÁRIO
Passeios sempre aos domingos: às 10h, 11h30min, 13h, 14h30min e 16h.
Ingressos: de R$3 a R$10
Informações e reservas: (11) 2885-2837 horário comercial (inclusive no Domingo).
As vagas são limitadas a 40 pessoas por viagem
Atende também escolas durante a semana.
Referências: 
¹,²e ³ Elcio Siqueira, Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus: contribuição para uma história da indústria pioneira do ramo no Brasil (1926-1987)

¹ Soraia Ansara, O LEGADO DA GREVE DE PERUS: LEMBRANÇAS DE
UMA LUTA OPERÁRIA.


Imagens: Tamires Santana



Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias quinzenalmente, às terças-feiras.