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07/07/2016

Canvas, pixels e rupturas

Por Tamires Santana

Clique aqui para assistir em HD.



Ao longo da história, nenhuma sociedade deixou de produzir arte, aliás, ela já havia sido esculpida pela natureza muito antes da humanidade existir. No entanto, a noção de arte foi distorcida pelos caminhos de uma produção artística seletiva, hoje conservada em museus, galerias, templos e em obras consagradas. Mas à medida que ampliamos o entendimento sobre o assunto, o olhar quanto ao visível que simboliza o invisível sofre uma ruptura e passamos a entender a arte fora de hierarquias padronizadas. 

Canvas, Pixels e Rupturas, documentário produzido por Tamires Santana, dá uma pincelada no panorama do mundo das artes, comenta a história e obras do artista urbano Bonga Mac e incentiva um novo olhar ao espectador dentro de uma linguagem descontraída, crítica e poética.

Tamires Santana, 26 anos, é empresária de Bonga Produções, jornalista de formação e design gráfico de paixão. Trabalha na área de criação e conteúdo em projetos culturais e educacionais voltados à arte urbana e ao graffiti. Acesse: http://tamisantana.wix.com/oficial

11/05/2016

Hip Hop Cultura de Rua:­ um livro de Keseone & Raul Dias

Por Tamires Santana
Registrar é resistir.

Vivenciar o fato, eis ainda a maior das experiências humanas. No entanto, é o seu registro a melhor maneira de evitar que o fato se perca nas profundezas de uma curta memória e na correnteza de uma extensa linha do tempo.

Da esquerda para direita: primeira edição do livro por Kaseone & Raul Dias e segunda edição por Kaseone & MC Who?
Ainda que registrar o presente tenha se tornado algo corriqueiro ­ o que por um lado dá voz à democratização do discurso visual e por outro ocorre o excesso de conteúdos e uma banalização da memória de nossa época, é sabido que nem sempre foi assim... Se hoje a discussão gira em torno dos excessos, nas gerações passadas o acesso a equipamentos ou à facilidade em preservar os registros (fotográficos, escritos, visuais e orais) era algo raro. E esta raridade abre espaço até hoje para um sentimento de novidade, preenchido pelo “nossa, não sabia” ou pelo clima de nostalgia.

Do acervo iconográfico ao destino dado a ele, a questão é: uma vez existente um registro, ele se torna uma extensão da memória e ter memória faz toda a diferença para reforçar uma obra. Escrito e reescrito, o livro Hip Hop Cultura de Rua  revela as raízes do hip hop de São Paulo; e agora, em sua segunda edição, de outras partes do Brasil. De autoria de Kaseone e MC Who? (é com interrogação mesmo), ganhou mais 97 páginas para indicar a trajetória de estados como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Goiânia, assim como também fala a respeito da importância histórica do filme “Beat­Street” (1984) para a cultura de rua e o percurso do hip hop, sobretudo o rap, para as periferias e o diálogo aberto com o Brasil.

Fotos de Criolo, Mano Brown, Edi Rock, DJ KL Jay, Sharylaine, Grupo Sampa Crew, Bonga, Dina Dee etc., além de recortes de noticiários e imagens de eventos, podem ser conferidos na publicação e dão riqueza de detalhes à pesquisa. O livro foi realizado sob incentivo do edital VAI junto à Prefeitura de São Paulo (Secretaria de Cultura) e possui um site criado por Kaseone HHB Studio, disponível em https://www.hiphopculturaderua.com.br, canal de comunicação que amplia a pluralidade do movimento abordada na versão impressa.

Tamires Santana, 26 anos, é empresária de Bonga Produções, jornalista de formação e designer gráfico de paixão. Trabalha na área de criação e conteúdo em projetos culturais e educacionais voltados à arte urbana e o graffiti. Seu trabalho pode ser conferido em http://tamisantana.wix.com/oficial

03/11/2014

Pouca morte para tanta vida

Hoje, em vez de uma das minhas listas sobre assuntos que estão a toda na internê, trago ao blog um texto produzido pela amiga e jornalista Tamires Santana, que aborda um tema evitado até de ser pensado por muitos de nós: a morte. Aproveitando o gancho do dia de finados (em 2 de novembro), que tal nos aprofundarmos um pouco na história dessa data e conhecermos mais sobre sua comemoração em outras culturas?

Abraço!
Gi Olmedo
___________________________

Qual é a verdadeira vida? Dê-me no máximo um século e hei de descobrir


Por Tamires Santana

Já passou, mas tem coisa que não é pra se pensar apenas em épocas festivas, é pra ser repensado diariamente. Não estou falando das eleições presidenciais, mas sobre o Dia de Finados, vulgo “dia dos mortos”, comemorado no dia 2 de novembro.

Grande parte das pessoas morre de medo (desculpe o trocadilho) ao tratar de assuntos fúnebres, sem perceber que a toda hora algo está morre e se renova, inclusive elas mesmas: de células a pensamentos. Este temor cria tantas resistências, que até mesmo o mercado de venda de planos funerários é prejudicado. Pra alguns, entrar em um cemitério, só em caso de morte de algum ente próximo ou em caso de morte própria — mas, neste caso, já seria tarde e não haveria muita escolha, né?

Por que raios comemorar o dia dos mortos?, alguns se perguntam.
Oras, tudo graças aos Papas Silvestre II (1009), João XVIII (1009) e Leão IX (1015). Desde o século XI os cristãos eram obrigados a dedicarem-se aos mortos um dia por ano – costume este já praticado desde o século 1°, quando visitava-se os túmulos dos mártires nas catacumbas para rezar pelos que morreram sem martírio. Estando em 2014 e ninguém sabendo mais o fundamento de cada coisa, mantém-se a tradição (ou imposição), com ou sem medo.

Pois bem, aí eu é que pergunto: por que tanto medo?
  1. Pensar no tempo que se deve empregar ao tratar sobre o assunto é no mínimo assombrador. É preciso falar de um futuro que pode se tornar presente a qualquer momento, baseado em lembranças (passado) de quem já foi, mas com aquela sensação de que ainda está aqui. Mas não está. E onde está? Pior, pra onde eu vou quando for a minha vez? Incertezas da vida de dar medo, que dirá da morte.
  2. Existe uma patologia exclusiva para assuntos fúnebres, a qual a ciência batiza de tanatofobia (do grego θάνατος, Thánatos, "morte") que nada mais é o medo de morrer, de coisas mortas ou de qualquer coisa associada com a morte. Segundo o filósofo Jacques Choron, existem três tipos de medo da morte: medo do que vem depois da morte (ligado às filosofias religiosas, castigos, solidões, sentimento de culpa etc.); medo do evento ou do processo de morrer (sofrimento prolongado, fraqueza, dependência, estar exposto e vulnerável etc.); e medo do "deixar de ser" (é o mais terrível, com o conflito entre o nada versus a continuidade após a morte, o não ser)
  3. A nossa formação de mundo (desde criança) é responsável em mistificar a imagem negativa que se tem sobre a morte. Também pudera, uma vez que é atrelada à foice, à caveira, às paisagens sombrias, à escuridão, sentença, punição, solidez, medo, susto, mistério etc.
  4. Existe um sentimento de apego total a tudo e a todos. Sim, meu caro (já dizia minha avó), enquanto não desligar-se do mundo material, a morte será um tormento. Isto significa que um muquirana não tem vez? Vai ficar com medo enquanto não deixar de se importar a deixar o que tem e/ou deixar para quem fica?! Meu amigo, é nestes casos em que se vira uma alma penada.
No entanto, visto que a única certeza da vida é justamente “bater as botas”, comece a morrer e renascer a partir de agora mesmo. Pra começar, basta dar uma espiada nos diferentes pontos de vista apresentados, mas como a crença é algo que povoa o imaginário de quem crê, tire suas próprias conclusões, pois a morte já tem a dela [rsrsrs]:

“Poca muerte para tanta vida”

No México, a morte é uma parte da vida e não o sinônimo de tristeza. Acredita-se que as almas vão para um lugar melhor – e, por isso, não há motivo para chorar. No Dia de los Muertos, acredita-se que as almas dos antepassados têm “permissão” para voltar ao mundo dos vivos e reencontrar seus entes queridos. Por isso, são montadas oferendas em cima das tumbas nos cemitérios e altares nas casas e escolas com os objetos que o falecido mais gostava.
Lá, a data é comemorada entre os dias 31/10 e 02/11, mas já inspira regiões brasileiras, como é o caso de Brasília com o festival Oaxaca Mágico, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Morrer: cruz credo, Ave Maria!

No Brasil, existe uma cultura de finados que ganhou peso e sofrimento. É o momento oportuno para relembrar quem já passou por aqui, o que normalmente provoca muita saudade e, em alguns casos, arrependimento. Quando criança, minha avó me contava que tempos atrás não se podia varrer a casa, assistir televisão, pentear o cabelo, fazer festas (nada de churrasco aproveitando o feriadão), assim como todos deveriam ir aos cemitérios rezar às almas. Confesso que me aproveitava da regra de “não varrer a casa”, mas sempre achei exagerado o clima mórbido que se criava.
Por outro lado e na mesma medida, no Brasil é possível se deparar com culturas e religiões que têm uma visão bem diferente acerca da morte, assim como dos espíritos que o acompanham. Normalmente estes pontos de vista diferentes vêm de religiões que permitem a incorporação de espíritos, o que oportuniza um contato direto com o além. Algumas delas são o kardecismo ou espiritismo, a umbanda, o candomblé, a macumba (normalmente confundida com o ritual de umbanda e mais encontrada em algumas partes no Rio de Janeiro), o catimbó (presente em regiões do nordeste), entre outras.

Morrer é elevar-se

Em tradições de origem Bantu, o Dia dos Mortos representa a ascensão do mundo espiritual, um momento de comunhão e troca entre as duas realidades, sendo que o universo dos mortos é o mais poderoso e tem mais força, porque está numa outra dimensão. Para o bantu, o luto é um processo que começa com a morte e é eterno, por ficar no coração e na mente das pessoas e, caso os antepassados não sejam bem venerados, pode causar infortúnio às comunidades.

Si se pate bon Ginen sa-a
No Haiti e na República Dominicana – e em algumas partes de Cuba e EUA -, apesar do vodou (seja ele haitiano, daomeano ou beninense) ter um caráter extremamente negativo para a maioria dos ocidentais, é em essência mais espiritual do que religioso, dotado de muita profundidade cultural, além de ter caráter revolucionário, contribuindo até com a Revolução Haitiana (1791-1804). Por ser uma religião que cultua os antepassados e entidades conhecidas como loas, há a visão de que os espíritos são forças poderosas, ainda que invisíveis e podendo se materializar no mundo de cá.
Portanto, “se não fosse pelos loas” (do original Si se pate bon Ginen sa-a) seria impossível entender o relacionamento além X alguém, de cunho sagrado, o que significa que o medo da morte, como muitos sentem, no vodou passa longe.

Sem dúvida existe muito mais “visões de mundo” que ajudariam a quebrar o medo e as convicções, incluindo “Morte e Vida Severina”. Fica a cargo da afinidade de cada um, além do interesse, é claro. Mas uma coisa é certa: nada como um espírito para ajudar a tirar a sombra da morte. Só não espere se tornar um [rsrsrs].


Tamires Santana é um ser vivo, dotado de inteligência e conhecimento (até se prove o contrário). É pai, mãe e espírito, ainda que nem um pouco santo. Estudou, trabalhou, buscou, andou — inclusive na linha 7-Rubi da CPTM (de dia e de noite) e hoje continua fazendo tudo isso, mas com a convicção de que quanto mais se busca, menos se sabe. Escreve apenas sob pressão e sobre assuntos que podem servir ou não para quem leu. Portanto, apesar de nunca ter ido ao Haiti, fica para reflexão o provérbio haitiano: "kaka kankou chen pa anyen; se tranble janm nan ki tout" - em tradução livre: "defecar como um cão não é grande coisa; é o tremor das pernas do cão que torna a experiência real". 

09/08/2014

Curso gratuito de graffiti "Quebrada em Cores"

Indicação de Tamires Santana

As aulas serão ministradas pelo artista Bonga Mac
Certificado de autenticidade, ferramenta de expressão, ato de protesto, surto criativo ou o grito do caos, seja lá qual motivo for o motivo, não é fruto do acaso o fenômeno em deixar registrado imagens ou mesmo o próprio nome em paredes. Presente desde a Antiguidade, tal ato atualmente se consagra através do graffiti, representado em suas letras, cores, frases, formas, desenhos, movimento, expressão e cada vez mais espalha-se por todo o mundo.
No entanto, muito além de uma técnica, o graffiti é uma vasta cultura. Como uma metrópole em movimento, constantemente está exposto a repressões, aceitações, mudanças e, principalmente, sendo incorporado e adaptado em diferentes contextos.
O curso "Quebrada em Cores", ministrado pelo grafiteiro Bonga Mac, aborda este e outros assuntos, utilizando-se da arte urbana para possibilitar o estímulo ao senso crítico social e artístico e discuti o graffiti enquanto arte que dialoga com o cotidiano da sociedade.
O curso é gratuito, sendo realizado pela Fundação Stickel, organização sem fins lucrativos cuja missão é promover a inclusão social, cultural e econômica de pessoas e comunidades por meio das artes visuais. As aulas aconteceram do dia 14 de agosto a 18 de setembro de 2014 (todas as quintas-feiras), das 14h às 17h, no Tendal da Lapa. Serão 20 vagas para alunos a partir de 14 anos e os resultados dos trabalhos serão expostos no mesmo espaço no 28 de setembro de 2014.
Os interessados devem se inscrever no site http://www.fundacaostickel.com.br/ ou no Tendal da Lapa, localizado à Rua Constança, 72 - Lapa/SP.



Tamires Santana
Jornalista | Design Gráfico
http://tamisantana.wix.com/oficial

08/11/2013

Deep Web: a rede obscura

Por Tamires Santana

Provavelmente já ouviu dizer que o ser humano não usa nem 10% da sua capacidade cognitiva. Pois bem, recentemente descobri que esta mesma falha acontece ao respirarmos e, mais recentemente, talvez tardiamente, descobri que o local onde todos nós nos encontramos também é apenas uma pequena parte do todo. A internet, máxima construção dos homens, instrumento de integração global, a mãe para todos da geração Y, não é apenas uma ferramenta para se navegar. É possível afundar e conhecer um oceano sombrio e cheio de segredos. Via de mão dupla, ao mesmo tempo em que leva em direção ao conhecimento, leva ao mundo da perdição (isto inclui as horas no Facebook quando há tarefas pra dar “prum” pau).


Como tudo na vida existe um mundo paralelo, uma marca do X enquanto versus, (vida material X espiritual, mundo legal X ilegal...), eis o ponto: Deep web, a rede obscura. Consultando a enciclopédia mais confiável do mundo, a Wikipédia, um ponto importante se esclarece:

“Não deve ser confundida com a dark Internet, na qual os computadores não podem mais ser alcançados via Internet, ou com a Darknet, rede de compartilhamento de arquivos” 


Tirando os questionamentos referentes ao uso do “dark” (negro por quê? Algum problema em ser negro?), entende-se que na Deep Web se encontra o que os sites de buscas, como o Google, não localizam. Algo mais específico como: tráfico de drogas, de crianças de países pobres, de órgãos, de armas, pedofilia, pornografia (infantil), matador de aluguel, exploração sexual, terrorismo, seitas religiosas, grupos radicais, canibalismo, os sempre presentes hackers... a lista é extensa e perversa demais para ser citada. Enfim, se trata de práticas que geram vagas e mais vagas de emprego para agentes na Polícia Federal e FBI.
São sites acessados via proxy  - mecanismo que não rastreia o número do IP. Existem vários tutoriais na net que explicam como adentra neste mundo obscuro. Sendo um deles dando a primeira dica: baixar o Firefox e o Tor, o que permite anonimato na internet. Chegando lá, a coisa é um pouco confusa, pra começar pelos endereços, mas nada que a curiosidade não consiga explorar e encontrar.
Sendo assim, preparo psicológico e estar em dia com o funcionamento do estômago são dicas importantes de se seguirem a risca, além de ter um bom antivírus e firewall, ambos atualizados, pois lá fica confirmado: o ser humano, dotado de inteligência, consegue demonstrar e explorar, de várias formas, a crueldade que existe em si.  Agora imagine isto na coletividade. Mais do que um mundo paralelo (ilegal), é importante atentar-se que existem diferentes finalidades, de todos os níveis.

Mas como?
Você pode estar se perguntar como é que isto surgiu e ainda se mantem.
“Em grande parte, a deep web existe, assim como a própria internet, graças à força militar dos Estados Unidos. Neste caso, graças ao Laboratório de Pesquisas da Marinha do país, que desenvolveu o The Onion Routing para tratar de propostas de pesquisa, design e análise de sistemas anônimos de comunicação. A segunda geração desse projeto foi liberada para uso não-governamental, apelidada de TOR e, desde então, vem evoluindo... Em 2006, TOR deixou de ser um acrônimo de The Onion Router para se transformar em ONG, a Tor Project, uma rede de túneis escondidos na internet em que todos ficam quase invisíveis. Onion, em inglês, significa cebola, e é bem isso que a rede parece, porque às vezes é necessário atravessar várias camadas para se chegar ao conteúdo desejado” (fonte:  Olhar Digital).

Na verdade a Deep Web não é manipulada por alienígenas, pelo grupo do Bin Laden, nem pelo Americano ou Russo. Não, são conteúdos navegando na própria dimensão Word Wide Web, só que, pelo endereço estar criptografados, não ficam “panguando” como os sites tradicionais.

Complete a frase: onde há demanda há? Oferta seria a resposta. O que significa que a parte invisível da internet só se mantém porque existe louco pra tudo.
E se deseja saber mais sobre o assunto, vale a pena pesquisar. Existem milhares de sites que passam dicas do que é preciso ter, saber, fazer ou o que vai encontrar.

Interessante? Caso deseja explorar a rede obscura, mantenha a cabeça no lugar, pois pode ver tantas outras sem ela, além de que, lembre-se de que se encontra em um mundo com liberdade, mas quanto a responsabilidade... Acrescente traumatizante.





Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos sociais na cidade de Francisco Morato. Escreve para o AODC Noticias sobre cultura e variedades, quinzenalmente, sempre às sextas-feiras. Aprecie artes gráficas em http://tamisantana.wix.com/oficial e textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

20/02/2013

Espertirina entre operários, luta de classe, buquê explosivo e estêncil

Por Tamires Santana




A arte urbana como ferramenta para ampliação da bagagem sobre nossa própria cultura.  Foi esta a conclusão tirada ao deparar com a mensagem gravada em um muro da Vila Madalena (SP): "Você conhece Banksy mas não conhece Esperintirina". E a carapuça serviu. Pois é, quem é Espertirina?

Normal caso associe a nomes de remédios, aspirina ou uma forma frustrada em escrever "espertinha". Não, nada disto,  na verdade, é muito mais. Espertirina Martins (grafia correta) não é encontrada facilmente nos enlatados e superficiais livros de Histórias distribuídos nas escolas públicas e não está registrada no Dicionário Mulheres do Brasil (referência de pesquisa em certas situações), o que é uma pena. 
No início do século XX, mais precisamente nos anos de 1917, o país foi tomado por um levante de greves e protestos que reivindicavam melhores condições trabalhistas e itens básicos para a sobrevivência, como a diminuição do valor dos preços dos alimentos, água, bonde e aluguéis e, sobretudo, extinguir a exploração da mão de obra infantil e dar direitos que cabíveis à realidade da mulher operária. A vida urbana estava completamente tomada por greves e conflitos entre capitalistas e operários. E, em uma destas manifestações, um operário de Porto Alegre veio a falecer. 

Organizado o enterro da vítima por colegas de trabalho, também como forma de protesto, os operários, entre homens, mulheres, crianças e idosos, acompanharam o enterro em procissão paralelamente, seguia a brigada militar numa tentativa de conter as manifestações e reprimir o caso. 

Chegado o momento do  confronto eis que a protagonista, até pouco tempo atrás desconhecida, atuou mostrando o poder feminino de forma criativa. Vestida de noiva e carregando um buquê a militante capixaba de nome inusitado e originária de família anarquista se aproximou das tropas e jogou um buquê de flores que explodiu (um artefato explosivo estava escondido), matando metade dos militares e assustando os cavalos. Conhecida como "A Batalha da Várzea", os operários saíram na vantagem, e a greve dos Braços Cruzados teve a sua contribuição para a conquistas de direitos como a jornada de trabalho de oito horas, o fim do trabalho infantil, licença médica, indenização no caso de acidente de trabalho, licença maternidade entre outros direitos hoje comuns nos contratos de trabalhos.
Espertirina Martins (1902-1942) não é uma das figuras mais bem (re)conhecidas, mas sua coragem e ousadia no processo da luta pelos direitos trabalhistas tem suma importância para a sua época e para os atuais frutos colhidos. Renegada pelo ensino, mas jamais apagada da história. 

Um "viva" ao artista e sua obra, capazes de colocar à tona o que nos foi negado.


*A pintura do muro utiliza-se da técnica do estêncil e foi produzida pelo Armamento Visual e Mundano. 

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Escreve para a AODC Notícias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos no blog O Filho é Meu.

06/02/2013

Carnaval: da manifestação popular à banalidade

Por Tamires Santana


O que se compreende por carnaval, em inúmeras regiões do mundo, é relativo. Dos lados de cá, o mais popular é aquele formato de samba, alegorias, fantasias e, mais recentemente, futilidade e depravação. As palavras poderiam sair da boca de um crente, mas na realidade ganham as passarelas da literatura por alguém que é simplesmente apaixonada por este universo: eu.

Pra começo de conversa, saindo do eixo Rio-São Paulo-Salvador, diga-se de passagem, esta manifestação popular também é encontrada no Frevo, Ilê Ayê, desfile de blocos, bailes de salão, afoxé, trio elétrico etc. Compreendê-lo está muito além de se contentar com os enlatados transmitidos pelas grandes emissoras.

São aparentemente diferentes, quando na realidade todas as formas de manifestação tomam o mesmo objetivo: fazer a alegria do povo. Entretanto, não é tudo “oba, oba”, como as aparências sugerem. Há o lado esquecido, hoje obscuro, inalcançável ao conhecimento popular, disponível apenas àqueles que bebem desta cultura e sabem do seu real significado e, limitando-se ao carnaval das escolas de samba, da forma mundialmente conhecida, dá-se pra ter uma ideia de como as coisas não andam nada bem.

Uma escola de samba, principalmente por meio dos sambas-enredos, tinha como objetivo ser ponto de resistência dos negros, valorização da autoestima; local em que se poderia retratar sua cultura, fatos históricos não narrados pela história oficial. Também enfocaria a colaboração do negro e o índio para a formação do Brasil, retomando as raízes perdidas, cantaroladas com composições poéticas e contagiantes.

¹Em pouco mais de 20 anos, os compositores das escolas de samba, negros em sua maioria, tinham abandonado o ufanismo estéril e a apologia das elites, mergulhando em sua própria história, compreendido o valor civilizacional da África e passando a produzir um discurso combativo e, por que não dizer, político.
Incomensuravelmente, a importância do samba de enredo no incremento da autoestima da população negra, na educação do país como um todo, no aprofundamento das discussões sobre a questão racial brasileira.

Após as atividades oficiais, as escolas promoviam desfiles nos bairros durante os dias restantes reservados à festividade, agregando pra si a participação da comunidade. Nos desfiles de hoje, tudo é cronometrado, os participantes são literalmente empurrados para dentro da passarela do samba e obrigados a seguir uma coreografia, perdendo a espontaneidade dos tempos anteriores.

Sua industrialização domina o real sentido da raiz social e cultural e o que temos como eixo central: seios cada vez mais siliconados e bumbuns empinados, sem contar o extinto 'samba no pé', exibido pela estrela global bem à frente da bateria (considerada o coração da escola). E assim, o Carnaval das escolas de samba se perde em meio à banalidade e ostentação.

¹ Livro Samba de enredo história e arte, página 109; Autores: Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas; Ano 2010, editora Civilização Brasileira.

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie seus outros textos, melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

16/01/2013

Mercado infantil, Star Wars e Lego

Por Tamires Santana

Assistindo ao desenho do Pequeno Príncipe no canal Cartoon Network, bruscamente entra o intervalo. Fiquei pensando sobre o mercado infantil. Em pensamento, reclamei dos conteúdos exibidos na grade para este público, ainda mais sendo mãe. Empurram novas linhas de materiais escolares, bonecas que falam, pistas de carrinhos, cursos de inglês, calçados e marcas de roupas. A criança não consegue assistir a nada sem sentir o desejo de ter algumas das coisas propagadas. Ao mesmo tempo, há incentivos para um mundo melhor, sendo mais gentil, educado e zelador do meio ambiente.

Pra quem gosta de animação, desenho não é papo de criança. O assunto é levado a sério. Há uma variedade de estilos, cada um com um roteiro, uma mensagem a ser passada, uma técnica de animação diferente. Alguns feitos em 3D parecem plástico; outros, recortes de papel; e mais outros, parecem traços de lápis ou mesmo pinturas feitas a pincel. Uma destas animações me chamou a atenção.
Você pode não ter assistido toda a trilogia, mas com certeza já viu nem que seja uma releitura de Star Wars, clássica ficção científica americana. Lançado em 1977, é mais conhecido no Brasil como Guerra nas Estrelas. Eis que me deparo com uma animação muito fofa e engraçada. Elementos como sabres de luz (aquela espada luminosa), naves, planetas, Darth Vader, Mestre Yoda, etc, tudo feito em Lego.

Há o impasse sobre os estímulos à kids consumistas, mas existe uma ascendência de diferentes assuntos abordados para conhecimento da criançada, fazendo-se assim, um investimento na criatividade. Talvez seja por conta das somas dos Ds (2D, 3D e o mais recente 4D). Vale a pena conferir - às vezes, tirar o olhar indiferente - e prestar atenção em como o nicho do mercado está trabalhado e direcionando as coisas. A educação ainda está a cargo da família e escola, mas os conteúdos produzidos na mídia influenciam e podem direcionar os rumos das futuras gerações.



Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

01/01/2013

Pica-Pau, um índio e mais uma meta para 2013

Por Tamires Santana

Não há nada mais prazeroso do que sentar-se em frente à TV e assistir a um daqueles desenhos clássicos que fizeram parte da nossa infância. Se bem que, no caso de um “adulto”, esta afirmação é questionável, mas enfim, não vamos tratar do mercado erótico aqui - pelo menos por hoje.

Assistindo pela milésima vez o desenho do Pica-Pau, noto que, mesmo uma cena já tendo se repetido diversas vezes, nem assim eu consigo recordar muito bem o final de cada episódio. Além disso, com um pouco mais de idade e bagagem intelectual, a percepção de certas mensagens, desta e de outras animações, muda completamente.

O Salsicha (Scooby Doo), por exemplo, parece um pouco maconheiro demais para alguém natural; o Pateta também não fica atrás, mas o conteúdo de seus desenhos tem excelentes críticas sobre o modo de vida da sociedade moderna e vale a pena rever; O Pernalonga continua sendo meu ídolo, ensinando que observar e esperar a hora certa é sempre a melhor maneira de vencer um obstáculo; O Taz não passa de um ser diferente, indisciplinado e carente, e me parece que os outros personagens só o sacaneiam porque ele é negro (hahahaha, brincadeira!); O Coiote, por sua vez, nossa, o Coiote com certeza foi um aluno repetente de Física e Matemática.

Foi graças a um episódio de um índio contra o Pica Pau que, como uma ficha caindo em um velho orelhão, o pensamento sobre a história que ninguém conta veio à tona. Lembrei até de um livro de 1970, chamado “Me Enterrem na Curva do Rio”, de Dee Brown, que trata muito bem sobre a nação desenvolvimentista que guarda na memória massacres, guerras à sangue frio e centenas de escalpos de apaches.

Todos deveriam saber que a América foi oficialmente “descoberta” pelos europeus e que, a partir daí, a triste história da exterminação começou. Os mais prejudicados pela invasão foram a fauna, a flora e os índios. Dezenas de tribos foram dizimadas em nome do progresso que bem conhecemos hoje.

Fiquei pensando sobre o outro lado da história. Enquanto a indústria cultural vende a cada geração os estereótipos de quem é o mocinho da história, imagino o verdadeiro drama do “bandido”. A psicologia certamente já deve ter batizado com algum nome o ser que tem a mania de torcer pelo bandido. Mas a questão principal mesmo é: quantas outras narrativas são engolidas sob a sombra de uma única ótica, uma única versão, uma única narração? Não quero trucidar o Pica Pau, ele é um pássaro esperto e na versão de 1970 é gentil e quase inocente. Mas quantas vezes acatamos apenas uma versão do episódio? Se esta forma de pensar é vendida desde o desenho animado, que dirá o restante.

Sendo assim, nos menores momentos e acontecimentos, acrescente mais uma meta para 2013:
Senso crítico: modo ativar

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

22/12/2012

Diga “olá” assim que B identificar o número de A

Por Tamires Santana
Sabe a Bina? Sim, o identificador de chamadas? Pois bem, lendo a Piauí deste mês, quase sem querer,querendo, descubro sobre a exaustiva trajetória do aparelho/serviço desde a sua inversão, até os dias de hoje.
Me deparei com a tecnologia quando ainda criança – se bem que não faz tanto tempo assim, ainda estou na fila pra tomar posse do meu direito de me tornar bicho grilo, adulto e maduro. Achei aquilo im-pres-si-o-nan-te. Em uma cabeça a serviço das “maravilhas do mundo fantástico de Bob”, o aparelho era criação dos japoneses. Acredito que ainda não perdi a mania de achar que todas as maravilhas tecnológicas que me impressionam são invenções dos japoneses.
Nãooooooooo! Esqueça os japoneses. Desta vez, a estatueta de melhor inventor vai para o mineiro: Nélio José Nicolai. Hoje ele mora na casa dos setenta anos e não se cansa em reivindicar a pequena fortuna que lhe pertence devido aos royalties (valor que se paga ao inventor para que a empresa tenha o direito - constitucional - em usar e explorar a invenção economicamente) que lhe foram negados até hoje. São 20 anos acumulando processos jurídicos. Alguém aí pague a patente, por favor?!

Bina é a sigla de "B identifica o número de A". Uau! Genial. A primeira versão foi criada e batizada em 1980 e a ideia veio em um sonho. Segundo Nélio, ele tentava resolver o problema da brincadeira (sem graça) que existe até hoje: os trotes telefônicos. E dá para acreditar que ele acertou logo no primeiro protótipo?! Pior, ao apresentar o projeto, a então empregadora Telebrasília não o incentivou a desenvolver a ideia porque a estatal achava que identificar o número de quem fazia a chamada seria uma invasão de privacidade. Hahahaha! O executivo que deu esta resposta até hoje deve se lamentar (se  é que ele já não morreu, é claro). 
Enfim, Nélio registrou a patente em 1980 e só depois de dois anos empenhou-se em colocar a ideia em prática. A Telefônica é a empresa mais divergente ao dar informações que eu conheço, agora ela se junta a Vivo (e vice versa) e o que temos: clientes descabelados e chorosos. É difícil afirmar com convicção, mas, pelo menos quando eu ligo na central, ainda hoje a Vivo-Telefônica insiste em colocar e cobrar o serviço a parte do pacote telefônico. Eu nem queria mesmo!
Tudo bem, não precisamos da Vivo-Telefônica, andamos acompanhados com a Bina todos os dias, praticamente 24h, nos celulares, tablets, smartphones e todas as parafernálias que servem para um monte de coisa, inclusive, atender e fazer ligações.
Da próxima vez que olhar para o visor do seu aparelho eletrônico, diga: “Olá, Bina”.



Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura e variedades, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

04/12/2012

ONG Brasil 2012

Por Tamires Santana



O Estado é pouco presente, quando não, completamente ausente em determinadas camadas da sociedade. Muitos ainda se iludem com o fato de que países desenvolvidos não passam necessidades. No entanto, favelas, moradores de ruas, desemprego, falta de informação, ou seja, situações de vulnerabilidade ou de risco, existem em todos os lugares do mundo.

Para suprir estas carências, as organizações, cada uma delas inserida no contexto que se propõe a ajudar, garantem e promovem trabalhos voltados às mudanças sociais e soluções de problemas no campo que atua. Algumas até ultrapassando as fronteiras. Compreendendo a importância das propostas, espalhadas pelo país e com a finalidade em juntar em um mesmo espaço as entidades sem fins lucrativos, dentre os dias 06 e 08 de dezembro ocorre a ONG Brasil 2012, evento de grande prestígio que reúne mais de 500 organizações, dando visibilidade aos trabalhos realizados.

São mais de 196 palestras gratuitas, abordando assuntos como meio ambiente, proteção aos animais, educação, esporte, defesa de direitos, geração de trabalho e renda, cultura e arte, saúde e inclusão. Para participar, é necessário apenas um cadastro e, para evitar filas, o mesmo pode ser feito no site da ONG Brasil.

Esta é uma ótima oportunidade da sociedade civil conhecer as ações que esta forma de fazer política para o bem comum atua e, quem sabe, incentiva a muitos aderirem a ideias ou a se incorporarem nas ações. O processo de um desenvolvimento real e humano em um país é árduo, fato. Já é de grande avanço, partindo de cada um, ter conhecimento do que está sendo produzido culturalmente e socialmente, colaborando, no mínimo com a divulgação destas atividades.

Serviço

ONG Brasil
Data: de 06 a 08 de dezembro 2012
Horário: Quinta e sexta-feira: 12h às 20h
Sábado: 10h às 17h
Local: Expo Center Norte, Rua José Bernardo Pinto, 333 Vila Guilherme - São Paulo / SP
Telefone: (11) 2089-8500

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

10/10/2012

Trilha da Memória: o despertar para os avanços e retrocessos da Fábrica de Cimento Portland Perus


Por Tamires Santana

Comecei a andar de trem sozinha, por volta dos meus treze anos de idade e, ainda assim, apenas no período de férias. Saía de Francisco Morato e seguia à Vila Mariana para passar alguns dias na casa da minha avó paterna. A sensação de liberdade era grande e a paisagem sempre maravilhou o meu olhar e preencheu a imaginação de curiosidades e fantasias. Como as coisas mudam... Foi-se o tempo em que era prazerosa uma viagem de trem! Entre Caieiras e Perus, sentido São Paulo, olhando para a direita é possível avistar uma fábrica abandonada. Não me recordo ao certo quando comecei a repará-la, mas desde aquele momento, repetidamente, pensava: “um dia ainda vou conhecer aquele lugar.” O dia tão esperado chegou e, para a minha surpresa, superou as expectativas.

A Trilha da Memória resgata a história da região. Sobretudo, mantém viva a lembrança que envolveu a instalação, desenvolvimento e fechamento da primeira fábrica de cimento que deu certo no país: a Fábrica de Cimento Portland Perus. A trilha (re)descobre um pequeno túnel utilizado na época pelos trabalhadores e suas famílias para irem à escola, fórum, etc. Chega-se às primeiras instalações abandonadas e que faz parte do contexto do funcionamento da fábrica; a casa dos administradores, dando vazão ao pátio e ao restaurante, até que se conhece as instalações onde trilhos e máquinas trabalharam incessantemente a céu aberto. Ferro, rochas, cimento, vagões abandonados, entradas sinistras, buracos, escadas de ferros quebradas, torres e fornos abandonados são alguns dos elementos que mais se veem no local. Além disso, o lugar é cheio de passagens subterrâneas, o que deixa o ambiente mais interessante e misterioso. Visitar o local à noite, só para os corajosos.

Bem mais adiante, pode-se contar com a presença de algumas famílias. Na antiga vila, a capela ao centro faz coro ao triângulo de casas. Mais caminhada e se tem a oportunidade de andar de Maria Fumaça do século 19, por 3 quilômetros de trilhos já recuperados e conhecer os  modelos de trens que fizeram parte da história do nosso país. Entre eles estão o trem de Santo Dumont, que inspirou Adoniram Barbosa a compor Trem das Onze, e a primeira locomotiva a ser fabricada no Brasil.

Curiosidade: a construção da Estrada de Ferro foi solicitada com o objetivo de atender os romeiros que se dirigem ao santuário, no entanto, nunca chegou a Pirapora. “Os trabalhos de construção foram realizados entre 1911 e 1914, com Os trilhos implantados em paralelo ao leito do Rio Juquery e do Córrego Ajuá (ou Perus), seu afluente. Entretanto, pouco depois do km 15, a linha foi bruscamente desviada para o Norte, na direção do bairro de Gato Preto, área então sob jurisdição do Município de Parnaíba, em flagrante contradição com o processo.”²

 História

 A história que envolve a Fábrica de Cimento Portland Perus é extremamente rica em detalhes, tramoias e injustiças. Resumindo, em 1910, o ministro Sylvio de Campos já havia descoberto que as rochas da região eram as melhores para produção de cimento. Em meados de 1926 a Fábrica é inaugurada, resultante de um consórcio entre comerciantes canadenses representados pela Drysdale y Pease (Montreal) e brasileiros ligados à Companhia Industrial e de Estrada de Ferro Perus-Pirapora.³

Chefiada pelos canadenses, a usina recebia todo tipo de cuidados, sobretudo com a qualidade de vida dos trabalhadores e suas famílias. J.J. Abdalla, ministro do governo na época e estrategista de primeira, sabia sobre o prazo da concessão, que venceria por volta de 1950. Chegou para os clientes da fábrica e anunciou que a usina só iria vender a produção se recebesse adiantado. Captou recursos suficientes para comprar a fábrica dos canadenses, assumindo em 1951.

O novo empregador só pensava em expandir a produção e esqueceu-se das questões trabalhistas: ao invés de consertar as máquinas, as remendava para não interromper o ritmo da produção.  Em menos de três anos a primeira greve estourou. Para se ter uma ideia, os filtros dos fornos não foram instalados corretamente; 10% da fumaça que saía  das torres espalhava-se pelo bairro de Perus, indo parar diretamente no pulmão da população. Outro agravante era nas épocas de chuvas, pois o pó de cimento misturava-se com a água e, na secagem, os telhados cediam com o peso. Os barrancos (até hoje) são cimentados pelo mesmo motivo.


Queixada não é lamentação

Queixada não é de comer, nem lamentação: é sinônimo de luta e honra. O nome atribuído aos trabalhadores significa “porcos do mato que, ao perceberem o perigo, reúnem-se em manadas, obrigando o inimigo a refugiar-se.” A Luta dos Queixadas durou sete anos, contando com a organização dos operários, população, sindicatos e organizações paralelas. O movimento teve participação ativa por meio das mobilizações de protestos, deixando evidente o descontentamento com as políticas apoiadas e implantadas pelo Estado e empresários em plena Ditadura Militar. Imagine quanta repressão e mortes a história esconde... Foi o movimento que realizou a maior greve na historia do Brasil e este ano faz 50 anos de luta. As importantes conquistas para os trabalhadores brasileiros, atingidas a partir do movimento dos Queixadas, foram a primeira regulamentação do salário-família; a presença do sindicato nos atos de contratação e demissão de mão de obra; e o reconhecimento da legalidade das greves por atraso de pagamento.
Portanto, a fábrica de cimento tem seu papel na economia nacional e sua história merece ser lembrada.


Serviço

Trilha da Memória
O programa faz parte da programação que comemora os 07 anos de Quilombaque. Para saber sobre próximas datas de passeios, entre em contato com o grupo.
Telefone (11) 3917-3012
Email: quilombaque@gmail.com

ECO-MUSEU FERROVIÁRIO
Passeios sempre aos domingos: às 10h, 11h30min, 13h, 14h30min e 16h.
Ingressos: de R$3 a R$10
Informações e reservas: (11) 2885-2837 horário comercial (inclusive no Domingo).
As vagas são limitadas a 40 pessoas por viagem
Atende também escolas durante a semana.
Referências: 
¹,²e ³ Elcio Siqueira, Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus: contribuição para uma história da indústria pioneira do ramo no Brasil (1926-1987)

¹ Soraia Ansara, O LEGADO DA GREVE DE PERUS: LEMBRANÇAS DE
UMA LUTA OPERÁRIA.


Imagens: Tamires Santana



Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias quinzenalmente, às terças-feiras.

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