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11/10/2014

Transporte Público

Por Beatriz Xavier


Levantou relutante, mas não possuía opção. Fulana, como tantas outras, lutava todos os dias para não ir trabalhar. Não que o trabalho fosse ruim, muito pelo contrário, amava a profissão que escolheu, amava mais ainda as pessoas que com ela dividia aquele aconchegante espaço.



Fulana, sim Fulana. Morria um pouco quando levantava da cama. Morria um pouco quando no meio da rua, ao lado de um palito de dente gigante – de coloração amarelada – estendia o braço para dar sinal ao nada. Lotação.

Espremida, seguia sufocada, morria ali mais uma vez. Subia as escadas de degraus separados a passos largos, mais um dia, e novamente as escadarias que levariam ao céu estavam com suas esteiras quebradas. Morria Fulana mais uma vez.

Morria quando entrava na estranha minhoca recheada de vermes que se espremiam sem nenhuma educação, empurravam, urravam, falavam uns com os outros de maneira ensurdecedora. Morria, morria. Morria mais um pouco e lutava para não morrer!

Saia, empurrada, como um almoço mal digerido pelas laterais da cruel minhoca, seguia para outra e outra, e outra. Até enfim chegar ao trabalho.

Quando passa a porta, morre. Morre Fulana. Morre exausta, pensa “se eu morasse perto, se perto de mim tivesse trabalho, se perto de mim eu pudesse existir, se existir pudesse perto de mim”. E morre, morre Fulana. Morre esperança, morre futuro, morre Fulana, até que um dia morre de verdade e se torna verme. Verme espremido no interior de uma minhoca.

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Beatriz Xavier (Bia), 20 anos, é estudante de Licenciatura em Letras no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Desde os doze anos de idade tinha certeza que seria escritora, hoje não possui mais tanta certeza, porém esse sonho ainda reina em seu mundinho. Escreve quinzenalmente aos sábados crônicas para o AODC Notícias.