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15/05/2014

O Cinza Predomina…

Por Bianca Mota



Quem nunca notou a presença de grafites nas ruas, prédios e muros de São Paulo? Bem, eles não passam despercebidos, até porque são os grafites que deixam a cidade mais colorida, alegre e reflexiva. Se você é um apreciador das artes de rua, vai entender como é triste e frustrante descobrir que essas obras foram apagadas como se não fossem nada de importante para a nossa cultura.

Recentemente,  alguns grafiteiros se reuniram na Nova Radial Leste de Itaquera para pintar um muro com a autorização da Subprefeitura. O trabalho realizado deixou a avenida mais interessante, mas o que realmente chamava atenção era o fato de, alguns dos grafites, terem como referência críticas em relação a copa. Depois de uma semana que essas obras foram concluídas a Subprefeitura mandou remover os grafites sem qualquer tipo de explicação. Isso não só deixou os grafiteiros indignados, como também afetou o humor de quem passa por lá.   





Não é a primeira e nem a última vez que isso irá acontecer, temos como exemplo uma das obras da dupla “OsGemeos” que também foi apagada na Vila Mariana, mas que nesse caso, não faz nenhum tipo de crítica.




O artigo 5º, inciso IX, da Constituição Federal em vigor, garante a liberdade artística independente de qualquer censura ou licença. ”É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;”, diz o artigo do capítulo dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos.


Grafitar é uma liberdade artística e não há motivos para que ela seja censurada. O grafite é cultura, apagar essas obras do mapa significa apagar a nossa identidade. É deixar apenas o cinza predominar…





“Amanhece! E na cidade é possível ver e sentir a presença de novas cores
Cores que deixam a cidade com toque de novo. Um toque com vários sabores
As paredes já não estão mais tão vazias… Sem almas
Agora elas representam amores, com flores e calmas

Desperta a atenção da mais jovem à mais idosa. E todos arriscam palpites.
Mal imaginam que quem fez aquelas artes são os discriminados ‘heróis do grafite’
Em questão de tempo aquela obra já não pode ser mais vista
É como um amor não correspondido. Não tem nem tempo de despedida

Vem então o conflito. “Mas foi autorizado pela prefeitura, senhor juiz.”
Isso não importa, no fundo o que eles querem realmente é uma cidade infeliz
Mas a arte não pode parar, tem muita parede vazia precisando se alegrar
Enraizada nas almas os grafites ficarão, e para sempre será de muitos a eterna paixão.”
-
Caetano Araújo


Referências:
Subprefeitura permite grafites em Itaquera e depois apaga trabalho: http://www.itaimpaulista.com.br/portal/index.php?secao=news&subsecao=5&id_noticia=2433
Imagens:
2 - Tirada por Bianca Mota na Av. José Pinheiro Borges (Nova Radial Leste). Grafite feito por Todyone.



Bianca Mota tem 17 anos e é estudante da Oficina Teatral A Ordem Do Caos de 2014.

25/11/2013

Mônica Nador: uma trajetória

Por Ingrid Pierazzo


Mônica é uma artista maravilhosa. É pintora, gravadora, desenhistas e formou-se em artes plásticas pela Faap, em 1983. Hoje mônica tem uma boa direção de seu trabalho, pois escolheu o que gosta mesmo de fazer!



Os primeiros trabalhos de Mônica tiveram muito uma perspectiva minimalista e combinada com as configurações de um alguns filósofos, que só depois da mesma ter ido fazer seu mestrado é que pode entender.



A partir daqui veremos seus trabalhos mais recentes, que foi onde Mônica conseguiu se achar como artista! Mesmo assim... Com estilos muito diferentes, uma coisa ela nunca perdeu: a repetição, a padronagem! O que não só apenas surgiu em sua vida, foi a LUZ das cores!
Em seus primeiros trabalhos sempre houveram uma qualidade inegável, mas ela sempre obtinha as mesmas falas de críticos de arte: “É um trabalho bem denso, né? Coisa de homem...Tá de parabéns mais uma vez, Mônica”. Coisa de homem? Que mundo é esse onde um trabalho maravilhoso é “identificado” como de caráter masculino. É uma obra! Isso independe. Uma crítica de arte não pode entrar em conceito de sexos. Primeiro porque sua obra não faz menção a isso e segundo, porque é muito pífio analisar a grandeza de seus primeiros trabalhos, fazendo uma relação direta com a figura do homem.
De qualquer forma, Mônica esteve pensando em mudar seu estilo de trabalho, não só por querer, mas por pensar na necessidade de deixá-lo com um ar mais “feminino”.


Neste já podemos ver a mudança de traços acontecendo. O traço passando a ser mais colorido e “feminino”.



Mônica, em seu novo olhar, sobre suas próprias peças começa a tomar como referência Van Gogh, Monet e Picasso. O que me fez escolher esta artista foi sua a sua próxima fase:





Ela começa a fazer um trabalho divino com estamparia que costumo dizer que é “compartilhada”. Mônica fez questão de aprender com grafiteiros e começar a aplicar em sua arte técnicas de estêncil, que é o que dá mais fluência de renda e olhar para o Jardim Miriam!
A arte não e aquela inflamada, que só existe da Europa, Paris... Arte é aquela que atinge a classe mais humilde. Atinge quem não pode chegar a lugares distantes. Arte é aquela para todos. Onde todos podem dar sua ajuda e cooperação. 
Mônica e outros artistas fundaram uma associação chamada Jamac. Esta associação era um coletivo onde muitos tinham oficinas de arte em geral. Havia, entre estas, oficinas de desenho. Nas oficinas de desenho tinha sempre aquele colaborador que inscrevia trabalhos no Anima-Mundi, e foi de lá que saíram alguns prêmios para o coletivo.


 A partir daí seus próximos trabalhos só eram feitos para os bairros mais carentes, recolhendo muitos adolescentes de vidas que poderiam torná-los quem não deviriam ser. Seu trabalho salvou muitos jovens da vida do tráfico e das ruas.



Seu olhar sobre arte é diferente daquele de muitos artistas. Não pretendia, com estes novos trabalhos, que eles fossem só para grandes exposições. Pretendia que eles atingissem quem não podia chegar até ele. A boa arte deve ser esta de que capta o público geral, o proletariado.

Mônica Nador faz de seus trabalhos uma autoria compartilhada! Uma arte democrática e de valor humano!



Referências:



Ingrid Pierazzo, 20 anos, e estudante de design, é apaixonada pelas artes e por todas as formas que a represente e escreve quinzenalmente, toda segunda-feira, para o blog AODC Noticias.

20/02/2013

Espertirina entre operários, luta de classe, buquê explosivo e estêncil

Por Tamires Santana




A arte urbana como ferramenta para ampliação da bagagem sobre nossa própria cultura.  Foi esta a conclusão tirada ao deparar com a mensagem gravada em um muro da Vila Madalena (SP): "Você conhece Banksy mas não conhece Esperintirina". E a carapuça serviu. Pois é, quem é Espertirina?

Normal caso associe a nomes de remédios, aspirina ou uma forma frustrada em escrever "espertinha". Não, nada disto,  na verdade, é muito mais. Espertirina Martins (grafia correta) não é encontrada facilmente nos enlatados e superficiais livros de Histórias distribuídos nas escolas públicas e não está registrada no Dicionário Mulheres do Brasil (referência de pesquisa em certas situações), o que é uma pena. 
No início do século XX, mais precisamente nos anos de 1917, o país foi tomado por um levante de greves e protestos que reivindicavam melhores condições trabalhistas e itens básicos para a sobrevivência, como a diminuição do valor dos preços dos alimentos, água, bonde e aluguéis e, sobretudo, extinguir a exploração da mão de obra infantil e dar direitos que cabíveis à realidade da mulher operária. A vida urbana estava completamente tomada por greves e conflitos entre capitalistas e operários. E, em uma destas manifestações, um operário de Porto Alegre veio a falecer. 

Organizado o enterro da vítima por colegas de trabalho, também como forma de protesto, os operários, entre homens, mulheres, crianças e idosos, acompanharam o enterro em procissão paralelamente, seguia a brigada militar numa tentativa de conter as manifestações e reprimir o caso. 

Chegado o momento do  confronto eis que a protagonista, até pouco tempo atrás desconhecida, atuou mostrando o poder feminino de forma criativa. Vestida de noiva e carregando um buquê a militante capixaba de nome inusitado e originária de família anarquista se aproximou das tropas e jogou um buquê de flores que explodiu (um artefato explosivo estava escondido), matando metade dos militares e assustando os cavalos. Conhecida como "A Batalha da Várzea", os operários saíram na vantagem, e a greve dos Braços Cruzados teve a sua contribuição para a conquistas de direitos como a jornada de trabalho de oito horas, o fim do trabalho infantil, licença médica, indenização no caso de acidente de trabalho, licença maternidade entre outros direitos hoje comuns nos contratos de trabalhos.
Espertirina Martins (1902-1942) não é uma das figuras mais bem (re)conhecidas, mas sua coragem e ousadia no processo da luta pelos direitos trabalhistas tem suma importância para a sua época e para os atuais frutos colhidos. Renegada pelo ensino, mas jamais apagada da história. 

Um "viva" ao artista e sua obra, capazes de colocar à tona o que nos foi negado.


*A pintura do muro utiliza-se da técnica do estêncil e foi produzida pelo Armamento Visual e Mundano. 

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Escreve para a AODC Notícias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos no blog O Filho é Meu.

25/09/2012

Quilombaque: a arte de resistir comemora sete anos

Por Tamires Santana


Enquanto as pessoas correm a passos largos, até mesmo aos domingos, rumo aos shoppings centers, na loucura por lazer, conforto e comida fast food, a Comunidade Cultural Quilombaque corre na direção contrária com o lema “quebrando correntes e plantando sementes, a nossa vitória não será por acidente!”. Na Travessa Cambaratiba, número 05, Beco da Cultura, bem em frente à estação de trem Perus, (linha 7-Rubi da CPTM) é possível ter o privilégio de caminhar sobre uma tranquila rua de terra, contemplar grafites que destacam  um extenso muro e chegar a uma pequena porta que dá de encontro ao magnífico mundo da intervenção cultural. É como caminhar sobre uma colorida floresta e encontrar um gigante sempre de braços abertos para um abraço fraternal.

Neste último dia 23, o Quilombaque comemorou sua festa de aniversário em celebração ao seu sétimo ano de integração entre movimentos sociais e comunidade, elegendo, para isto, a Praça Inácio Dias e uma agenda muito especial, com atrações diversificadas. O público apreciou música de qualidade com a participação das bandas “O Mandruvá”, “Os Incorretos”, “Guarus”, “Cartel Central” e a cantora Kiara Luna. Também houve apresentação de arte circense, intervenções de literatura e o polêmico graffiti “Maldade Pública”, fazendo alusão a porcos, políticos e os incêndios na favela do Moinho (SP).

José Soró, 48, há cinco anos atuando como coordenador de planejamento do Quilombaque, conta que nos primeiros dois anos de existência, a entidade se manteve em uma garagem na Rua José Correa Picanso, mais conhecida como a Rua do Sapo. Como seus idealizadores Dedê, Clevinho e Fofão, todos irmãos, tinham como meta montar uma oficina de marchetaria, necessitavam de um local maior e de fácil acesso.  Desta forma, alugaram um galpão que, na época, servia de oficina de caminhões.

Apesar de a palavra intervenção ter incorporado há tempos o nome da Comunidade, o local é alugado e, por isto, pode-se considerar que o maior desafio em manter o trabalho ativo trata-se da sustentação financeira. “Tem que ser criativo para poder ter estabilidade de geração de renda. Temos superado através dos ganhos do bar, da realização de eventos, contribuições voluntárias e capitação de recursos por meio de projetos de atividades regulares”, afirma Soró. Outro fator que implica sobre as dificuldades que o movimento enfrenta se debruça sobre um projeto criado em 2011 pela prefeitura. O plano visa devastar vários núcleos de moradia que se encontram na beira do rio, incluindo o Quilombaque, para a construção do “Parque Linear”. Ante este fator, a “ocupação” tomou conta da funcionalidade do movimento.

Difícil entender como existem projetos que promovem a produção e a difusão cultural, que proporcionam aos moradores, principalmente aos jovens, a experimentação, fruição e expressão das diversas e diferentes formas de manifestação artístico-culturais, que incentivam o desenvolvimento social, educacional, ambiental e econômico local sustentável. Além deste fator, hoje, uma das maiores resistências é o preconceito que os jovens sofrem. Os sintomas arraigados são: desemprego, vulnerabilidade em casos de violência, seja como praticante ou vítima e falta de oportunidades.

Ainda assim, sobre o atual momento, em meio a todas as dificuldades, é possível colher resultados positivos. As oficinas de percussão, danças, circo, marchetaria, libras, redação, teatro, Hip Hop, grafite, educação ambiental e Arte da Paisagem, disciplina do Laboratório de Estudo da USP, ministrada pelo professor Euler, não deixam dúvidas sobre o sucesso da circulação cultural. Igualmente por meio da promoção das atividades de cinema, teatro, música, debates, exposições de fotografia e artes, esportivas, festa junina, saraus e feiras de artesanatos.

A Comunidade Cultural Quilombaque se tornou um dos principais pontos de cultura e oposição ao falso pensamento de que as coisas não dão certo na periferia: segue firme como articulador junto a outras lideranças de diversos locais, fomentando a produção cultural e proporcionando uma movimentação e diversas experimentações, angariando, desta forma, o funcionamento de uma verdadeira rede de cultura.
Pense em algo que faça sinônimo com esta história. Fale: RESISTÊNCIA!

Imagem: Tamires Santana

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias quinzenalmente, às terças-feiras.

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