Mostrando postagens com marcador cronicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cronicas. Mostrar todas as postagens

08/01/2017

Zona de conforto

Por Danilo Moreira


Não deixe teus sonhos caírem de sono,
Enquanto espera a tua sorte acordar, 
Aguardando brotar a dose ideal de coragem,
Ou a chegada da oportunidade certa.

Esse sono vicia.
Dopa.
E te apodrece.

Março de 2016
Foto: Domínio Público

Danilo Moreira é jornalista e escritor. Além de gostar de observar e delirar sobre as entrelinhas do cotidiano, também produz conteúdos voltados à Criatividade no site Gênio Criador. Trabalhou no teatro por três anos com atuação e criação de roteiros. Seu blog pessoal é o Ponto Três. Escreve mensalmente para o AODC Notícias.

29/05/2015

Passos desconhecidos

Por Danilo Moreira


Naquele dia novamente tivemos greve de ônibus no final da tarde, o que deixou milhares de pessoas sem ter como voltar para casa. Tive que sair do terminal e seguir por uma longa rua escura, que de um lado tinha casas pichadas e, do outro, na época, antigas moradias para maquinistas da linha de trem que servia a região, mas devido às obras de expansão já estavam desabitadas para serem demolidas. A maior parte das construções era ocupada por usuários de drogas e já não tinham mais portas, janelas e até telhados, apenas mato alto. Histórias de roubos naquela rua já eram conhecidas pelos moradores. Já tinha passado por lá no dia anterior com várias pessoas e carros parados, mas naquele momento tudo estava deserto. Não pensei muito, queria chegar logo em casa e fui por ali mesmo. 

Bem no começo, percebi que um homem caminhava atrás de mim. Usava boné, blusa azul marinho e tinha um jeito suspeito. Cismado, percorri o trecho de subida e, ao chegar no começo da longa decida, avistei um outro rapaz, de jaqueta em tactel vermelha, que caminhava mais devagar. Cheguei a ultrapassá-lo, mas não quis me distanciar. O de boné permaneceu atrás dele. E ficamos nós três caminhando praticamente no mesmo ritmo naquela longa rua mal iluminada. Segundos depois, o cara da blusa azul marinho é que passou por nós dois. Ao perceber que a distância entre mim e ele aumentava, desacelerou. Às vezes, um olhava disfarçadamente para os outros dois, em um misto de desconfiança, apreensão e, ao mesmo tempo, uma estranha sensação de segurança. Era consenso: caminhar sozinho por ali era pior. 

Após a descida iniciava-se outra subida. E ofegante, o rapaz de boné desacelerou. Eu estava mais disposto e o passei, mas mantive uma distância curta dele. O terceiro permaneceu atrás de todos, mas quando precisava, apertava os passos para não ficar tão distante. Decidi acelerar e os dois fizeram o mesmo. Andei mais devagar. O rapaz de jaqueta vermelha passou o segundo, mas permaneceu atrás de mim. Aquilo estava ficando meio engraçado... Formamos um trio de desconhecidos, que por um motivo instintivo, permanecia junto, mesmo sem dizer uma palavra. Subimos a rua, atravessamos uma esquina, subimos outra com mais matagal e escuridão ao lado, e saímos no acesso de uma grande avenida. Por conta do intenso movimento dos carros, ficamos parados por alguns minutos. Nesse momento, o de jaqueta vermelha comentou o quanto estava difícil essa vez. Eu e o de blusa azul marinho, seguindo o costume brasileiro de rir dos próprios problemas, concordamos sorrindo. 

Ameaçamos atravessar e os carros enfim pararam. Caminhamos por um gramado e saímos na avenida principal. O rapaz de jaqueta vermelha seguiu reto. Sorriu, desejou bom descanso e se despediu de nós com um olhar agradecido pela companhia involuntária. O de boné continuou caminhando comigo até a rua de casa (ele morava bem mais à frente). Batemos um papo. Ele me contou que no dia anterior, da primeira greve, saiu muito tarde do trabalho e teve que dormir dentro do terminal, pois não tinha mais como voltar para casa. Quando cheguei no meu portão, nos despedimos, ele feliz porque naquele dia iria dormir na sua casa. 

O que a gente não faz para amenizar a sensação constante de insegurança...

Danilo Moreira é jornalista e escritor. Além de gostar de observar e delirar sobre as entrelinhas do cotidiano, atua no jornalismo empresarial e produz conteúdos voltados à Criatividade. Trabalhou no teatro por três anos com atuação e criação de roteiros. Escreve toda última sexta-feira de cada mês para o AODC Notícias. 

31/01/2015

Biscoito ou Bolacha?

Por Beatriz Xavier

Determinado dia um sujeito ouviu no rádio algo curioso... Algo mudaria a forma como via o mundo. Estava sentando no consultório, esperando alguém ou a si mesmo, quando esperamos por tanto tempo esquecemos por completo aquilo que esperamos. Mas aquele sujeito tinha em suas orelhas desajeitadas um par de fones de ouvido.


Ele despreocupadamente ouvia música, mas não lhe dava a devia atenção, ouvia comentários entre uma e outra sem ouvir... Até que enfim ouviu: Metade dos jovens Norte-Americanos considera o livro um objeto arcaico...

Mas o que seria um objeto arcaico? O que seria arcaico para esse sujeito, ou para os jovens Norte-Americanos? Arcaico seria ultrapassado?

Não pode ser! – ele pensou – como desconsiderar um livro? Não digo que o papel seja fundamental... Temos leitores de E-book hoje em dia... Mas livro é livro... Imagine a humanidade considerar ultrapassado pensar? Esses jovens!

E então ele simplesmente se levantou, foi até o bebedouro, bebeu água – que estava acabando – E retornou para a sala de espera – sem saber o que esperar.


Na sala seu lugar havia sido ocupado por outra pessoa que possuía o aspecto cansado, como todas as outras ali, inclusive ele próprio. Seu olhar focou na pequena mesinha de centro, sobre ela nada de livros - nunca há livros - somente revistas. E sem saber o que de fato esperava saiu, caminhou pela rua... Ele um homem sem livros e ao lembrar-se da sala que acabou de abandonar foi capaz de perceber que nenhum dos cansados esperadores possuíam um livro. E ao reparar esse singelo detalhe veio a grande sacada do sujeito: Se não sabemos o que esperamos, mas matamos nosso tempo procrastinando sem razão e discutindo fervorosamente sobre Biscoito VS Bolacha, por que não nos matamos nosso tempo com Literatura? Que ao menos seja um homicídio que enriqueça. Pensar atrasa tanto a vida em uma cidade?

Imagens: Beatriz Xavier


Beatriz Xavier (Bia), 20 anos, é estudante de Licenciatura em Letras no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Desde os doze anos de idade tinha certeza que seria escritora, hoje não possui mais tanta certeza, porém esse sonho ainda reina em seu mundinho. Escreve quinzenalmente aos sábados crônicas para o AODC Notícias.

05/10/2014

Crônicas: Evaporar

Por Talita Araújo



Uma professora da disciplina de Língua Portuguesa chega para os seus alunos do ensino médio e introduz o conteúdo da literatura. A primeira frase foi como uma frase solta, sem conexão, porem a frase pousou sobre a mente de Maria: " A palavra escrita é eternizada."


A partir daquela frase Maria pensou, teve mais cuidado ao escrever pois não queria que sua letra e seus pensamentos fossem motivo de riso aos que viessem depois. Queria que seus versos, suas canções, seus desenhos e palavras permanecessem de forma inteira e consistente.


Maria, mais velha, começou a não pensar mais sobre o conteúdo de suas palavras. Sua preocupação agora era quanto ao tempo que não possuía para escrevê-las. As palavras de outrora que já estão eternizadas, são passado. As palavras do futuro que ainda serão eternizadas, serão passado. Apesar de passar, mudar e correr, o tempo permanece intacto e estático: " Ainda temos 24h no dia, mas hoje tenho muito mais coisas, quanto mais eu tenho, menos tempo eu tenho. O tempo parece evaporar. Mas e as palavras que não serão escritas?"



Talita Araújo cursa Arquitetura e Urbanismo, perfeccionista e amante das artes. Escreve quinzenalmente aos domingos para o AODC notícias.

03/02/2014

De passagem ou não?

Por Ingrid Pierazzo 

Chegou com o amigo e sentou-se à mesa que situava num lugar movimentado demais para o que viria acontecer depois. Tinha uma camisa propriamente escolhida e o cabelo distraidamente arrumado para frente e para o lado. Não sabia dizer se estava lá só de passagem.

Levantou-se da mesa onde estava e a menos do um passo sentou-se junto ao banco do piano, logo à esquerda. Tocou: duas lentas, duas rápidas, uma lenta e duas rápidas.
Perto do que, incomumente, havia acabado de acontecer num ambiente como aquele, já não fazia a menor diferença saber o porquê de ele estar ali.

De passagem ou não? Era mesmo contratado? Não?

Estava pouco arrumado para quem era contratado e muito arrumado para quem só andava por aquele lugar.

Tocou, com aqueles dedos curtos e rápidos, canções demais para quem estava de passagem e de menos para quem havia sido contratado. 

Miniconto de Ingrid Pierazzo


Ingrid Pierazzo, 20 anos, e estudante de design, é apaixonada pelas artes e por todas as formas que a represente e escreve quinzenalmente, toda segunda-feira, para o blog AODC Noticias.

06/01/2014

Uma ida de ônibus

Por Ingrid Pierazzo

 
No ônibus, uma ida seria como qualquer outra. O “boa tarde” do motorista e o olho a olho entre cobrador e passageiro poupa mais descrições, por tamanha candura.

Os olhos se encontram com aqueles desejados e indiferentes a quem olha toda vez.

Os pensamentos devaneados tentavam encontrar um lugar para ficar. Sinatra entra e conforta um pouco o desalento que a mente se encontra de não conseguir se prender a um pensamento.

Um solavanco. Alguns se desequilibram, crianças caem no colo de desconhecidos, bolsas trocam de donos, celulares são quase engolidos. Morreu!



O ônibus morreu na ladeira. “Acende o carro”... Para! “Acende o carro”... Para! “Acende o carro”... Morre de novo! “Não vai subir”, “Vamos ter que ir a pé”, “Tô com criança de colo, seu ‘motô! ’”.

Caem fones de ouvido, livros são fechados e não se ouvem notificações. Devaneios antes inconscientes dão lugar ao que é consciente.

Tentando achar uma saída, os devaneios que se tornaram conscientes sofrem agora, para achar uma solução racional para a situação, tanto quanto antes, quando o único lamento, era não conseguir prender um pensamento.

A única coisa que resta a todos é esperar que o carro andasse ou quebrasse de vez. Emissão de pensamentos positivos.

Pegou! O ónibus da outro solavanco e sai com a força que nenhum outro ônibus teve numa ladeira daquelas. O caminho era pequeno até o fim da rota, mas neste meio tempo entre morre e vive deu para falar mal, esbravejar, resmungar, xingar, pensar, não pensar, avisar pelo telefone, devanear, não conseguir achar saída.

Todos nas mãos do que estaria por vir!
Crônica e imagem de Ingrid Pierazzo

Ingrid Pierazzo, 20 anos, e estudante de design, é apaixonada pelas artes e por todas as formas que a represente e escreve quinzenalmente, toda segunda-feira, para o blog AODC Noticias.


04/06/2013

Desengano

 Por Bia Oliveira


Senta o petiz ao meu lado e sorri, sorri irritantemente.  Como eu não tivesse mesmo o que fazer, a não ser pensar, pensar e pensar Nela incessantemente, deixo que fique ao meu lado e espero que dê início a suas tediosas indagações.
Dito e feito:

- Tio?
- Sim?
- Que é que o senhor está fazendo?
- Pensando.
- Pensando em quê?
- Na Vida, meu jovem, na Vida.
- Ahh...
 ...
- Tio?
- Sim?
- Que é a vida?
- Ah, ainda não lhe contaram sobre a Vida, não é mesmo? - Ausente sua resposta, vi nisto um sinal para que prosseguisse.
- A Vida foi uma mulher que me encantou muito. Digo que foi, não porque agora está morta, mas porque hoje não a quero mais comigo.
- E como é que ela era?
- Ah, era linda a Vida! Verdadeiramente linda! Inteligente, bela, sutil e graciosa. Era daquelas que quando a gente olha endoidece, e quer tocar com as mãos, e quer sentir, e quer tanto ela que parece carecer somente dela, porque sem ela não há o que fazer. Mas eita danada de gênio forte! Ai se tu visse menino! - como eu tivesse dito muita palavra estranha, fez que perguntou, agarrando-se a última:
- Tio?
- Sim?
- Que é gênio forte?
- Gênio forte é mulher.
- E porque a vida se foi?
- Ela não foi, eu é que decidi partir.
- E por quê?
- Porque, meu caro, como toda mulher, a Vida também tinha os seus defeitos. Quando tirou a maquiagem, seu lindo espartilho, desceu do salto e pôs-se a grassar as nojeiras que tinha, não pude; larguei logo de tudo aquilo.
 ...
- E agora?
- E agora o quê, menino?
- Que há agora, tio?
- Não sei filho, sinceramente, eu não sei. Mas sei o que não há: não há mais futebol, não há mais beleza, sabor ou beneficência, não há samba! E eu tento, tento, tento, gostar dela assim mesmo, do jeito que ela é...  Ai, que saudades eu tenho daquele samba!
Como que entontecido com tanta palavra nova, perguntou de uma vez, ávido por manter a conversa:
- Tio?
- Sim?
- Que é sÁmba?
- Não é sÁmba, é samba.
- Como?
- SAMBA: Sã-ãmba!
- Ah...
 ...
- Tio?
- Diga.
- Que é sãÃmba?
...
- Samba, meu caro, é o rebolado da vida.


Bia Oliveira é Estudante da Oficina teatral A Ordem do Caos, participa do AODC notícias e mantém seu blog pessoal: http://bia-blogpessoal.blogspot.com.br/

Instagram

>

Não deixe de conferir:

Oficina Teatral 2022 - CEU PQ Bristol

Depois de muito tempo parados por conta da pandemia de Covid-19, finalmente estamos de volta com a oficina teatral gratuita. Agora em um no...