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02/10/2015

“Que horas ela volta?” e sua crítica social

Por Danilo Moreira


Recentemente assisti ao elogiado Que horas ela volta?, filme nacional de Anna Muylaert (É proibido fumar | 2009). O longa conta a história da pernambucana Val (Regina Casé), que deixou a filha no interior do estado para trabalhar como empregada doméstica em São Paulo, assumindo também o posto de babá de Fabinho (Michel Joelsas), filho dos patrões. Anos depois, sua filha Jéssica (Camila Márdia), lhe telefona pedindo ajuda para se hospedar na capital paulista para prestar vestibular. Val, que mora na casa dos chefes, consegue a autorização deles para receber a adolescente. Porém, a menina não segue protocolos de “filha da empregada” estabelecidos e acaba por gerar diversos conflitos.

Anna sabiamente escolheu Regina Casé para interpretar um tipo de pessoa tão conhecida na realidade do nosso país. É quase impossível não se lembrar de alguém observando os trejeitos, o cotidiano e a história de vida desta mulher. Algo que chama muita atenção no filme são as cenas em que o posicionamento da câmera na cozinha filma à distância os patrões se alimentando na sala de jantar, fazendo o público, assim como Val, sentir-se de certa maneira proibido de fazer parte daquele momento. Vemos também características de relacionamento comuns entre muitas domésticas e patrões, como a passividade ao esperar que a empregada sirva e retire tudo da mesa e o adolescente criado pela babá que a trata como mãe, entre outros elementos. E Val, conformada com sua situação, sente-se como parte deles.
Para quem não sabe, antigamente era natural que as empregadas trouxessem suas filhas “em idade de trabalhar” à casa dos patrões para ajudar também nos afazeres. Jéssica representa o rompimento dessa estrutura. A ambição em crescer na vida, a consciência do seu potencial e a recusa em seguir a mesma postura submissa da mãe dentro da casa são um retrato de uma geração mais consciente sobre todo o cenário em que vivemos, não abaixando mais a cabeça para determinadas imposições sociais elitistas. Em outras palavras, a adolescente é o tapa que o filme joga na cara de Val, da família e dos telespectadores, explicitando as diferenças sociais ainda existentes na sociedade, e que às vezes parecem sumir dos nossos olhos de tão recorrentes que são: o quartinho humilde da doméstica, as sobremesas separadas para patrões e a criadagem, o estigma de “filha da empregada” que não pode circular em determinadas áreas da casa, entre outras situações.

É bom ver Regina Casé à vontade e transmitindo tanta verdade em um papel rico, além de rever Michel Joelsas, que já tinha encantado como o protagonista de O ano em que meus pais saíram de férias (2006), agora atuando como um adolescente típico de família de classe media alta mimado e mais apegado à babá que o criou do que à mãe. Camila Márdia também impressiona ao dar um tom tímido e contido à personagem, que de repente cresce e mostra a que veio na história. Em São Paulo, o longa está em cartaz em cinemas como o Caixa Belas Artes. Além de ter sido premiado no Festival de Berlim e no Sundance Film Festival, Que horas ela volta? poderá representar o Brasil na lista de indicados ao Oscar 2016 de melhor filme estrangeiro.



Fonte: Adoro Cinema  

Danilo Moreira é jornalista e escritor. Além de gostar de observar e delirar sobre as entrelinhas do cotidiano, atua no jornalismo empresarial e também produz conteúdos voltados à Criatividade. Trabalhou no teatro por três anos com atuação e criação de roteiros. Escreve mensalmente para o AODC Notícias.

06/02/2013

Carnaval: da manifestação popular à banalidade

Por Tamires Santana


O que se compreende por carnaval, em inúmeras regiões do mundo, é relativo. Dos lados de cá, o mais popular é aquele formato de samba, alegorias, fantasias e, mais recentemente, futilidade e depravação. As palavras poderiam sair da boca de um crente, mas na realidade ganham as passarelas da literatura por alguém que é simplesmente apaixonada por este universo: eu.

Pra começo de conversa, saindo do eixo Rio-São Paulo-Salvador, diga-se de passagem, esta manifestação popular também é encontrada no Frevo, Ilê Ayê, desfile de blocos, bailes de salão, afoxé, trio elétrico etc. Compreendê-lo está muito além de se contentar com os enlatados transmitidos pelas grandes emissoras.

São aparentemente diferentes, quando na realidade todas as formas de manifestação tomam o mesmo objetivo: fazer a alegria do povo. Entretanto, não é tudo “oba, oba”, como as aparências sugerem. Há o lado esquecido, hoje obscuro, inalcançável ao conhecimento popular, disponível apenas àqueles que bebem desta cultura e sabem do seu real significado e, limitando-se ao carnaval das escolas de samba, da forma mundialmente conhecida, dá-se pra ter uma ideia de como as coisas não andam nada bem.

Uma escola de samba, principalmente por meio dos sambas-enredos, tinha como objetivo ser ponto de resistência dos negros, valorização da autoestima; local em que se poderia retratar sua cultura, fatos históricos não narrados pela história oficial. Também enfocaria a colaboração do negro e o índio para a formação do Brasil, retomando as raízes perdidas, cantaroladas com composições poéticas e contagiantes.

¹Em pouco mais de 20 anos, os compositores das escolas de samba, negros em sua maioria, tinham abandonado o ufanismo estéril e a apologia das elites, mergulhando em sua própria história, compreendido o valor civilizacional da África e passando a produzir um discurso combativo e, por que não dizer, político.
Incomensuravelmente, a importância do samba de enredo no incremento da autoestima da população negra, na educação do país como um todo, no aprofundamento das discussões sobre a questão racial brasileira.

Após as atividades oficiais, as escolas promoviam desfiles nos bairros durante os dias restantes reservados à festividade, agregando pra si a participação da comunidade. Nos desfiles de hoje, tudo é cronometrado, os participantes são literalmente empurrados para dentro da passarela do samba e obrigados a seguir uma coreografia, perdendo a espontaneidade dos tempos anteriores.

Sua industrialização domina o real sentido da raiz social e cultural e o que temos como eixo central: seios cada vez mais siliconados e bumbuns empinados, sem contar o extinto 'samba no pé', exibido pela estrela global bem à frente da bateria (considerada o coração da escola). E assim, o Carnaval das escolas de samba se perde em meio à banalidade e ostentação.

¹ Livro Samba de enredo história e arte, página 109; Autores: Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas; Ano 2010, editora Civilização Brasileira.

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie seus outros textos, melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

01/01/2013

Pica-Pau, um índio e mais uma meta para 2013

Por Tamires Santana

Não há nada mais prazeroso do que sentar-se em frente à TV e assistir a um daqueles desenhos clássicos que fizeram parte da nossa infância. Se bem que, no caso de um “adulto”, esta afirmação é questionável, mas enfim, não vamos tratar do mercado erótico aqui - pelo menos por hoje.

Assistindo pela milésima vez o desenho do Pica-Pau, noto que, mesmo uma cena já tendo se repetido diversas vezes, nem assim eu consigo recordar muito bem o final de cada episódio. Além disso, com um pouco mais de idade e bagagem intelectual, a percepção de certas mensagens, desta e de outras animações, muda completamente.

O Salsicha (Scooby Doo), por exemplo, parece um pouco maconheiro demais para alguém natural; o Pateta também não fica atrás, mas o conteúdo de seus desenhos tem excelentes críticas sobre o modo de vida da sociedade moderna e vale a pena rever; O Pernalonga continua sendo meu ídolo, ensinando que observar e esperar a hora certa é sempre a melhor maneira de vencer um obstáculo; O Taz não passa de um ser diferente, indisciplinado e carente, e me parece que os outros personagens só o sacaneiam porque ele é negro (hahahaha, brincadeira!); O Coiote, por sua vez, nossa, o Coiote com certeza foi um aluno repetente de Física e Matemática.

Foi graças a um episódio de um índio contra o Pica Pau que, como uma ficha caindo em um velho orelhão, o pensamento sobre a história que ninguém conta veio à tona. Lembrei até de um livro de 1970, chamado “Me Enterrem na Curva do Rio”, de Dee Brown, que trata muito bem sobre a nação desenvolvimentista que guarda na memória massacres, guerras à sangue frio e centenas de escalpos de apaches.

Todos deveriam saber que a América foi oficialmente “descoberta” pelos europeus e que, a partir daí, a triste história da exterminação começou. Os mais prejudicados pela invasão foram a fauna, a flora e os índios. Dezenas de tribos foram dizimadas em nome do progresso que bem conhecemos hoje.

Fiquei pensando sobre o outro lado da história. Enquanto a indústria cultural vende a cada geração os estereótipos de quem é o mocinho da história, imagino o verdadeiro drama do “bandido”. A psicologia certamente já deve ter batizado com algum nome o ser que tem a mania de torcer pelo bandido. Mas a questão principal mesmo é: quantas outras narrativas são engolidas sob a sombra de uma única ótica, uma única versão, uma única narração? Não quero trucidar o Pica Pau, ele é um pássaro esperto e na versão de 1970 é gentil e quase inocente. Mas quantas vezes acatamos apenas uma versão do episódio? Se esta forma de pensar é vendida desde o desenho animado, que dirá o restante.

Sendo assim, nos menores momentos e acontecimentos, acrescente mais uma meta para 2013:
Senso crítico: modo ativar

Tamires Santana é jornalista e designer gráfico, além de militante em prol dos movimentos culturais na cidade de Francisco Morato. Ela escreve para o AODC Noticias sobre cultura, quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Aprecie textos melancólicos, insensatos, apaixonados e quase nunca jornalísticos em: http://ofilhoemeu.blogspot.com.br/

09/08/2012

O déficit da sociedade


Por Ligia Mendes

Hoje, o assunto será um pouco diferente das matérias anteriores. Eu estava, há alguns dias, olhando as atualizações do meu Facebook, quando deparei com a seguinte postagem:



Logo após, haviam inúmeros comentários indignados, dizendo que "é uma vergonha estamparem na capa de uma revista de circulação nacional uma matéria relacionada à novela", "que é medíocre", "que o Brasil não vai para frente", "que a revista Veja é uma piada", entre tantas outras opiniões que realmente me revoltaram, salvo alguns míseros comentários proveitosos. E, por este motivo, decidi também expressar o que penso sobre esta situação, mediante o seguinte post, que considerei inteligente:

“Rafael Pereira: Pqp.. quanta ignorância! A Veja é uma revista SEMANAL, a capa da semana passada é o Zé Dirceu.. A revista precisa cumprir seu papel politico, mas também precisa abordar questões não-politicas e até fúteis pra que seja vendida em grande quantidade. E é essa venda que financia o jornalismo investigativo feito pela própria revista, que vive desmascarando corja de safado!”

Primeiramente, é claro que a Veja, como tantas outras publicações, possui o dever de cumprir seu papel social, conforme seu público-alvo e assuntos em questão. Porém, o que inúmeras pessoas não concordam é que vivemos num mundo totalmente capitalista, movido a interesses, dinheiro, consumo, estratégias. E todas as mídias agem de acordo com situações proveitosas em que possam lucrar e divulgar seu produto/serviço de modo a atingir seu público alvo e êxito da corporação.

Para todos aqueles que defendem tanto a questão política, pense em tudo o que você sabe sobre o assunto e, se você fosse dono da Globo, Record, Revista Veja ou qualquer outro veículo de comunicação, se agiria de modo bondoso à sociedade ou em prol de si mesmo, para seu desenvolvimento profissional e financeiro.

Infelizmente, a verdade é que existem muitas pessoas que só sabem criticar, mas possuem, ao mesmo tempo, deficiência em arranjar soluções para todos os problemas que aparecem, seja na vida pessoal ou profissional.

Não existem pessoas boas, pessoas más, empresas boas ou más... Existem pessoas e empresas que agem de acordo com seus interesses, que possuem o seu lado bom e ruim, e cabe ao indivíduo escolher com quem anda e o que consome, ou perde seu tempo analisando algo.

18/04/2012

A Carta da Terra


Por Daniela Pedroso 
Já parou para pensar que você é peça fundamental para montar o quebra-cabeça da vida no Planeta Terra?
Há muitas gerações o ser humano enxerga a natureza como objeto, aproveitando todos os recursos naturais que podem ser retirados do meio ambiente para benefício próprio, e na maioria das vezes, além das necessidades básicas. Infelizmente, a situação ambiental atual mostra que esse pensamento está equivocado. O Homo sapiens é apenas mais uma espécie dentre todos os seres vivos neste planeta e compartilhamos da mesma fonte. Portanto, acabar com o meio ambiente é autodestruição a longo prazo!
Com a escassez dos recursos naturais, estamos sentindo na pele a resposta da natureza em relação à atitude indiscriminada da sociedade humana. Mas o que realmente será bom para as gerações futuras? Como podemos melhorar o planeta para nossos filhos? O que podemos fazer para consertar o que as gerações anteriores fizeram de errado? Ou melhor, o que podemos fazer para consertar o que nós ainda fazemos de errado? Buscando respostas para essas e outras perguntas, com a necessidade de mudar a maneira como pensamos e vivemos, a Carta da Terra surge para nos desafiar a examinar nossos valores e a escolher um caminho melhor. Mas o que é esta carta?
“A Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século 21, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica.  Busca inspirar todos os povos a um novo sentido de interdependência global e responsabilidade compartilhada, voltado para o bem-estar de toda a família humana, da grande comunidade da vida e das futuras gerações. É uma visão de esperança e um chamado à ação.” (Comissão da Carta da Terra).
Precisamos entender que as mudanças do mundo começam pelas ações individuais. Não podemos esperar que elas cheguem até nós, enquanto culpamos o governo e os vizinhos pelo o que acontece.
Vivemos na era do consumo, onde tudo parece extremamente necessário e ao mesmo tempo descartável. Quantos sapatos você tem? Quanto tempo você fica no chuveiro vendo a água ir pelo ralo? Quantas horas seu computador fica ligado sem você estar usando? Você prefere alimentos frescos ou industrializados? Já parou para pensar que alimentos industrializados utilizam mais embalagens? Quanto lixo você produz por dia? Saberia me dizer quanto você pode reduzir esse lixo, apenas mudando sua alimentação? Provavelmente você nunca se questionou sobre isso. Devemos começar a refletir sobre esses pequenos hábitos, nos perguntarmos sobre a influência de nossas ações na sociedade e o quanto podemos melhorar ou piorar a situação atual. O quanto somos danosos ao meio ambiente e às pessoas a nossa volta? Qual a minha real contribuição para as futuras gerações? Somos pequenas peças que precisam encaixar seus pensamentos para consertar o que está errado e reeducar nossos hábitos e nossos pensamentos diante da vida.
Independente de qual forma de vida, o indivíduo tem um papel importante a desempenhar. O primeiro passo é reconhecer que cada ser vivo tem seu valor e estamos todos interligados, independente de sua utilidade para o ser humano. Precisamos compreender e aceitar que temos o direito de utilizar os recursos naturais, mas com isso vem a responsabilidade de administrá-los de forma consciente e impedir danos irreversíveis ao meio ambiente e à nossa própria espécie.


Precisamos renovar nossos pensamentos e por meio das artes, ciências, religiões, instituições educativas, meios de comunicação, empresas, organizações não-governamentais e do governo, introduzir uma nova forma de vida, onde passamos a enxergar que o ser humano faz parte do meio ambiente e os recursos naturais são finitos, de modo que a utilização consciente e cautelosa é necessária. 

Daniela Pedroso é bióloga, está cursando pós-graduação em Biologia Molecular, é membro do grupo teatral A Ordem do Caos e colabora com o AODC Noticias todas as quartas-feiras, com matérias sobre Ciência e Meio Ambiente.

12/04/2012

100 anos de Mazzaropi


Por Eduardo Andolini

No último 9 de abril, Amacio Mazzaropi, um dos maiores ícones do cinema nacional faria 100 Anos.

O review de hoje, Jeca e seu filho preto, fala sobre o personagem que, em pleno anos 70, protagonizou uma comédia que falava sobre preconceito racial. O melhor e mais bem produzido filme de Mazzaropi, que por sua vez, está em seu melhor desempenho, 
conta a história de Zé do Traque, colono da fazenda do Coronel Cheiroso. Ele tem dois filhos, um negro, Antenor e um branco Laurindo, o que desperta curiosidade por causa da diferença de cor entre eles. A filha do Coronel, Laura, inicia um romance com Antenor, despertando a ira de seu pai, que passa a perseguir a família "do Traque". O filme chega ao ponto de um julgamento para poder resolver todos os mistérios.

A magia, junto com a simplicidade de Mazzaropi, que juntava humor, drama e crítica social, ação e um final inteligente, coloca o filme como um verdadeiro clássico que merece ser visto e revisto.

Ficha Técnica
Titulo Original: Jeca e seu filho preto
Gênero: Comédia
Direção: Berilo Faccio, Pio Zamuner
Roteiro: Amácio Mazzaropi, Rajá de Aragão
Estreia no Brasil: 1978


Imagem: museumazzaropi.com.br
Filme Completo no Youtube

*Eduardo Andolini é professor de educação física e língua inglesa, membro do grupo A Ordem do Caos e escreve sobre cinema para o AODC Notícias todas as quintas-feiras.

05/04/2012

Habemus Papam



Por Eduardo Andolini

Surpreendente em todos os sentidos, Habemus Papam é um filme italiano de 2011 que chegou há pouco tempo no Brasil, mas é daqueles que, infelizmente, não se encontra em todos os lugares.
Trata-se de uma obra tecnicamente impecável, com atuações, figurinos e direção exemplares. E o melhor, passa uma ideia extremamente interessante. A história fala sobre um conclave, que após a morte do Papa, escolhe seu sucessor. O escolhido, na hora de se apresentar para seu povo, não se mostra pronto para tal missão lhe dada por Deus, e tem um surto de pânico diante de tanta pressão e responsabilidade. Depressão e angustia acompanham o cardeal, que começa a ser tratado por um psicólogo - o melhor de todos, por sinal - que também se vê em apuros com o caso.

Apesar do drama que o personagem passa, o filme conta o enredo com muitas cenas divertidas e engraçadas. Isso dá um tom mais leve do que sua verdadeira história.

A direção é de Nani Moretti, o que já indica algo muito bem feito, pois o ator/diretor, conhecido por filmes como O Crocodilo e Aprile, é muito respeitado em seu país, sendo considerado um dos mais originais cineastas da atualidade.


Ficha Técnica

Titulo Original: Habemus Papam
Gênero: Drama
País: Itália
Ano: 2011




Imagens: IMDB

23/03/2012

Sonhar é Grátis


Por Helerson Oliveira

Quando penso em sonho, tenho diversas lembranças... Nos mais variados sentidos!

Focarei na minha compreensão da frase deste “silk”.  SONHO, no sentido de inspiração, de pensamento adiante, no melhor estilo dos grandes seres inventivos, como o Henry Ford, que uma vez disse: “Se eu perguntasse a meus compradores o que eles queriam, teriam dito que era um cavalo mais rápido”. Ninguém tinha sonhado ou conseguido construir um veículo em uma linha de produção. Ford sonhou com algo relativamente novo, algo que muitas pessoas pudessem comprar, e mais uma vez imaginou que pudesse fabricar esta máquina o mais rápido possível!

Está bem, os mais céticos dirão: “É... mas o ‘Fordismo’ e a invenção do carro deram no que deram...”. Ok. Mas a idéia central não é essa. Se não evoluímos, ou evoluímos de uma forma não sustentável de lá prá cá, a culpa não foi de Ford, pois ele fez a parte dele no tempo dele. A idéia é fazer algo grande. Quando penso nisso, é inevitável a lembrança de Steve Jobs, no célebre e emblemático discurso na Universidade Stanford, em 2007: "Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração".

E por falar nisso... Compartilho meu sonho através da tradução da letra de John Lennon, Imagine.

Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade humana
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só


O sonho será capaz de dar sentido para a sua vida. Sim, poderá ser uma quimera, algo quase incompreensível para outras pessoas, mas vá adiante, é de graça!


Helerson Oliveira, 28, é fotógrafo há mais de 10 anos. Estudante de administração, considera-se um documentarista. Acredita que o conhecimento e a arte transformam nossa existência. É colaborador do AODC Notícias todas as sextas-feiras, falando sobre fotografia, imagens e as sensações que elas nos causam. 

26/08/2011

Entender?



Por Eduardo Andolini

É impossível não reconhecer a importância do cineasta Glauber Rocha para o Brasil e para o mundo. Entretanto, sua visão apaixonada pelos filmes, fazendo do cinema arte, e nada menos que arte, por meio de seu conteúdo político explicito e seus conceitos sempre muito a frente de seu tempo, são discutíveis. Discussão que hoje, 30 anos após sua morte, poderia ser debatida sem chegarmos a uma conclusão. o que Glauber fez há tanto tempo sem chegar a uma conclusão.

Seu último longa, A Idade da Terra, é um grande exemplo e resume bem o que era o cinema para o diretor: a ausência total de um roteiro, um filme pra ver e ouvir, que não conta uma história, segundo o próprio Rocha.

E por que assistir a um filme se ele não conta uma história? A resposta seria algo como: Por que ver um quadro? As idéias estão ali, para serem captadas conforme o astral da pessoa que assiste. Assim como elas, as imagens foram realizadas com um método e objetivos parecidos.

Eu, particularmente, não tenho certeza se o próprio Glauber entendia o que ele estava fazendo, se sabia da dimensão que isso tudo teria. Mesmo 30 anos depois de colecionar admiradores por todo mundo, por estudar um pouco de sua trajetória  eu não consigo imaginá-lo vivendo nos dias de hoje e fazendo cinema. A indústria que ele tanto combateu e criticou tomou conta de tudo. Não existe, no cenário atual, nenhum cineasta com a sua audácia, criatividade e loucura.





"Sem linguagem nova não há realidade nova."

Glauber Rocha


22/08/2011

30 Anos sem câmera nas mãos e ideias na cabeça...


Por Eduardo Andolini

Já nos acostumamos a comemorar números redondos, então vamos entrar nessa! Não que se comemore a morte de alguém, mas hoje,  22 de agosto de 2011, faz exatos 30 anos que Glauber Rocha faleceu no Rio de Janeiro.

Glauber é talvez o cineasta de maior notoriedade do Brasil e, com toda certeza, o maior ícone do chamado cinema novo. Ele é reconhecido por especialistas do mundo inteiro como um revolucionário, pois mudou a forma de fazer e pensar cinema no Brasil, conseguindo levar isso até para o exterior, onde é até mais reconhecido e valorizado.

Vencedor de vários prêmios internacionais, Glauber Rocha já foi considerado o diretor mais importante do mundo fora de Hollywood. É visto lá com a mesma importância de Jean-Luc Godard.

Nesta semana inteira, aqui no AODC Notícias, você acompanhará uma série de matérias contando um pouco mais sobre essa história: opiniões, resenhas de alguns filmes e frases marcantes dessa verdadeira lenda.

"A função do artista é violentar" 
  Glauber Rocha

Imagem: www.digestivocultural.com

*Eduardo Andolini é professor de educação física e língua inglesa, membro do grupo A Ordem do Caos e escreve sobre cinema para o AODC Notícias.

11/08/2011

Dogville



Por Eduardo Andolini

"De boas intenções o Inferno esta cheio". Quem nunca ouviu essa frase? É basicamente essa mensagem que Lars Von Trier nos traz nesse filme. Aqui, temos a história de uma garota, Grace, nos anos 30, brilhantemente interpretada por Nicole Kidman, que foge de seu próprio pai, um chefão da máfia. A moça encontra abrigo em uma pequena vila onde tudo tem seu preço, que, diga-se de passagem, vai ficando cada vez mais alto: quanto mais difícil é seu esconderijo, maior é o valor, até chegar um ponto em que ela não sabe se o melhor é continuar ali ou se entregar.

Além de um roteiro interessantíssimo e um final inesperado, desses que você não sabe o que pensar, o filme também tem um visual bem diferente. Os cenários são bem simples, lembrando uma produção teatral, o que exige muito mais dos atores que, por sua vez, dão show nesse sentido. Aqui temos grandes atuações de todos eles.

Pra você que é maluco como eu, que gosta de ver como foi feito, existe também um documentário interessante chamado "Dogville Confessions", onde além daqueles extras que quase todos os DVDs contêm hoje em dia, há uma espécie de "confessionário", onde os atores falam sobre a filmagem, ensaios e sobre a direção.



Dogville é o primeiro filme de uma trilogia ainda não terminada que se chama "EUA terra das oportunidades". Fazem parte dela Manderlay, lançado em 2005, e Washington, que ainda estreou.

Ficha Técnica
Título Original: Dogville
Gênero: Drama, Mistério, Suspense
Direção e Roteiro: Lars Von Trier

Fotos: IMDB




*Eduardo Andolini é professor de educação física e língua inglesa e escreve sobre cinema para o AODC Notícias todas as quintas-feiras

20/06/2011

Reflexões sobre a poesia de Brecht

Por Rafael Frade


Perguntas de um trabalhador que lê

Quem construiu a Tebas de sete portas?
                                         Nos livros estão os nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída. 
Quem a reconstruiu tantas vezes? 
Em que casas Da lima dourada moravam os construtores? 
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a muralha de China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo. 
Quem os ergueu?
 Sobre quem Triunfaram os Césares?
 A decantada Bizâncio Tinha somente palácios para seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida Os que se afogavam gritavam por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou. 
O jovem Alexandre conquistou a Índia. 
Sozinho?
César bateu os gauleses. 
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada Naufragou.
 Ninguém mais chorou? 
Frederico ll venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta? 
Tantas histórias. 
Tantas questões.

Os poemas de Bertold Brecht têm encantado gerações por sua mordaz crítica. Por isso, ao menos um deles faz-se merecedor de espaço nesse blog.

O poema acima reflete uma inquietude de Brecht quanto ao mérito dos fatos históricos. É um tanto nítido que suas indagações se destinam aos que conferem aos grandes nomes a glória por realizações de fato coletivas. A cada verso, o autor nos mostra um exemplo de um nome que ganhou fama pela realização e uma interrogação, fazendo-nos raciocinar sobre quem realmente agiu para que a história pudesse ser escrita.
                                                                                                                           
O interessante do poema é que ele continua vivo e significativo, podendo ter sua mensagem aplicada ao atual modo como a história é contada. Para isso, contamos com um famoso exemplo.

 “Getúlio Vargas, o pai dos pobres”, frase célebre dita na década de trinta. Vargas ganhou essa denominação por ter concedido uma série de direitos aos trabalhadores como férias, salário mínimo e aposentadoria. Contudo, o ex-presidente não concedeu os direitos aos trabalhadores: eles o conquistaram através de uma série de protestos e greves na época dos anarcossindicatos.

O mais impressionante é que a história ainda é contada dessa forma. Ainda é possível ouvir que a Princesa Isabel aboliu a escravidão no país, quando seu fim foi ocasionado por uma série de pressões internacionais e alterações na conjuntura econômica nacional. O intuito de tal versão dos fatos é tirar a ideia de que o cidadão comum, estudantes e trabalhadores, têm o poder de mudança.

Talvez o poema possa deixar uma mensagem aos cidadãos ditos comuns, apontando-os como os responsáveis pelo que aconteceu. Agindo ou observando, eles fazem história.


Um pouco sobre Brecht



Brecht foi um grande teatrólogo, dramaturgo e poeta alemão que viveu durante a primeira metade do século XX(1898 - 1956). No campo literário, produziu contundentes críticas aos problemas sociais que via, à forma como as relações humanas desenvolviam-se, críticas à guerra, à vida na cidade e à Alemanha nazista, a qual teve de deixar devido ao que escrevia. Seus poemas são verdadeiras aulas de história, pinturas da sociedade.

Caso alguém queira adentrar ao mundo literário de Brecht, há um excelente artigo de Leandro Konder publicado pelo IEA-USP (www.iea.usp.br/artigos/konderbrecht.pdf) de onde algumas informações deste artigo foram tiradas.

15/05/2011

Qual o valor da palavra?


Por Lítcia Orellana

  Tive, recentemente, na universidade onde curso artes cênicas, a semana de comunicação e artes. Não pude sair um dia de lá sem diversas questões a se pensar. Porém, gostaria de saber se existe resposta plausível para a seguinte pergunta: se em tempos que a palavra não vale nada, para quê usá-la? Inicialmente, parece uma indagação absurda mas, parando pra pensar, é a nossa realidade. Utilizando um fato atual, e que foi citado por um dos meus professores, vamos refletir sobre a pergunta que o mundo todo fez sobre a morte do terrorista Osama Bin Laden. É aí que entra nosso tema.

 Por que a palavra do homem não vale mais como antigamente? Por que precisamos ver uma foto para que digamos se foi real ou não? Nesse caso, pode até ser jogada de marketing, mas coloquemos isso nos dias de hoje, onde entra o famoso dito popular “só acredito vendo”. É ai que percebemos a desvalorização da do que se diz, como um todo. Para quem trabalha com a arte, fica aí uma dúvida a ser respondida, pois um dos mais ricos elementos de nossas produções é o texto. 


Imagem: http://tinyurl.com/3ap5j7y

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